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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRITICAS TEATRAIS - POR DANI CÂMARA - 23/05/2026



Crítica por Dani Câmara 


Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 23 de maio de 2026

 


Pêndulo Suburbano” é uma cena de grande potência política e poética ao transformar a experiência autobiográfica de seu intérprete em matéria teatral. O que primeiro chama atenção é a presença cênica de Eduardo, que domina o espaço por meio da voz, do corpo e da precisão dos gestos. Sua voz alcança todo o teatro, sustentando uma narrativa que combina comicidade, denúncia e afeto, em um constante movimento de anunciação.

Há uma inteligência cênica notável na forma como o ator utiliza seu próprio repertório corporal para construir a dramaturgia e os momentos sonoros. O domínio da voz, dos gestos e das ações escolhidas para a cena evidencia a pesquisa do ator sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca. A encenação de Ygor Fortino e Luis Fernando Rocha, junto à iluminação de Nana Pereira, aposta em uma cena bem desenhada, permitindo que o corpo e a palavra assumam centralidade. O figurino de Ster Tonini — um macacão que remete ao universo operário, acompanhado da mochila — reforça a identidade do espetáculo e dialoga diretamente com a figura do trabalhador e do estudante que circulam pela cidade.

A autobiografia surge como um elemento potente, não apenas por revelar experiências pessoais, mas por transformá-las em linguagem artística capaz de gerar identificação e reflexão. O resultado é um trabalho que estabelece forte diálogo com o território onde é apresentado. Em uma mostra realizada em Marechal Hermes, por exemplo, a narrativa encontra ressonância imediata junto ao público que compartilha, em diferentes níveis, experiências semelhantes de deslocamento, trabalho e luta cotidiana.

Ao mesmo tempo em que denuncia estruturas de desigualdade, “Pêndulo Suburbano” preserva um lirismo delicado. O projeto constrói um corpo insurgente que fala de resistência sem abrir mão da esperança. Há uma dimensão sensível que atravessa toda a montagem, permitindo que o espetáculo dialogue tanto com questões urgentes da realidade brasileira quanto com aspectos profundamente humanos da experiência de existir e sonhar.

Como possibilidade de aprofundamento, o trabalho pode seguir investigando a construção gestual ligada aos percursos realizados pelo personagem ao longo da cidade, assumindo um texto mais curto. O que pode ser dito pelos gestos sem o texto? Como a encenação já opera com gestos bastante precisos e simbólicos, um refinamento ainda maior desses movimentos, junto à dramaturgia — especialmente nos momentos que evocam os deslocamentos de trem e os trajetos cotidianos — pode potencializar a experiência do espectador. Não se trata apenas de aprimorar uma técnica, mas de fortalecer a relação entre gesto, memória e emoção, ampliando a capacidade da cena de conduzir o público para dentro da experiência vivida.

“Pêndulo Suburbano” é um trabalho especial e toca direto o coração de quem assiste. Reafirma a potência do teatro como espaço de escuta, reflexão e transformação, dando voz a narrativas que historicamente atravessam a cidade, mas que nem sempre encontram lugar de fala na vida e nos palcos. Parabéns a toda a equipe!

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“Respira” - COMO É LINDO O CORPO NEGRO EM CENA - É um trabalho de rara beleza, um coletivo em sua maioria negro, construído com brilho, sutileza e sensibilidade. Desde os primeiros instantes, a obra revela uma pesquisa cênica consistente e profundamente autoral. A cena inicial, produz um impacto imediato. Há algo fascinante na maneira como os intérpretes se comunicam sem recorrer à palavra falada, explorando gestos, respirações e presenças que transformam o corpo em linguagem.

Trata-se de uma obra que constrói sua narrativa a partir da dramaturgia do corpo, situada entre o teatro e a dança, em uma investigação sensível da presença e do movimento.

A unidade entre os intérpretes - elenco, coro formado por Sol Sussuarana, Felipe Izidoro, Victor Lucas, Luana Hyuuga, Alleker Soares, José Reis, Maias demonstra grande precisão técnica e expressiva, entregando performances marcadas pela presença. É um dos grandes destaques da montagem. Existe uma escuta coletiva muito forte, que sustenta a cena e fortalece a expressividade do conjunto.

Nesse diálogo entre teatro e dança, o espetáculo nos convida a perceber o corpo como território de poder, capaz de produzir ruídos, sons, imagens e significados sem depender exclusivamente da palavra. É um trabalho que merece continuar circulando e alcançando novos públicos.

A direção de José Reis, acerta na forma como organiza a encenação, construindo uma composição equilibrada. A Cenografia de Thiago Pinheiro e figurino de José Reis e Caio Cone dialogam de maneira harmoniosa com a proposta estética da obra, enquanto a trilha sonora de Júlia Storino, José Arthur Fernandes e Bruno Rangel e iluminação de Wellington Fox ampliam as camadas de sentido da encenação.

Também merece destaque a direção de movimento de Kay Lima, que desenha a cena com forte teatralidade sem abrir mão da dança nem da singularidade de cada artista. Os deslocamentos, as imagens corporais e a composição coletiva revelam uma pesquisa cuidadosa com o universo proposto.

Como provocação para futuras investigações, a obra talvez possa aprofundar ainda mais a pesquisa de maquiagem, ampliando as relações visuais com o universo simbólico construído em cena e fortalecendo algumas das imagens que já se mostram bastante potentes. Da mesma forma, sobre a investigação dos limites entre o som e o silêncio - ao longo do espetáculo os artistas trabalham o quase falar, produzindo vocalidades  que criam atmosferas de intensidade. Como esses recursos poderiam ser explorados a partir de um silêncio ainda mais radical? Como construir suspense, tensão e dramaticidade sem recorrer a qualquer emissão vocal?

Por fim, a proposta de encenação menciona a inclusão da linguagem de sinais (LIBRAS),  na cena. No entanto, esse elemento não se torna perceptível durante a experiência. Fica a curiosidade sobre como essa camada de pesquisa poderia ser inserida e consolidada ou deixada de lado para explorar outras nuances que já existem na cena.

São reflexões que nascem justamente da riqueza das possibilidades que o trabalho apresenta e que revelam um campo fértil para novas experimentações.

Respira é um trabalho que conduz o público por um percurso que transita da beleza ao drama, finalizando em uma espécie de desterro que deixa os espectadores imersos em um universo de silenciamento, convocando uma suspensão final necessária e muito marcante.

É um espetáculo sensível, necessário e impactante. Um trabalho que demonstra o talento de toda a equipe envolvida e reafirma a potência do corpo como espaço de criação, resistência e encontro. Sou grata por ter assistido a uma obra tão bela e significativa.

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Mirins constrói uma experiência cênica singular ao abordar a vida dos Exus Mirins a partir da figura de duas crianças que brincam nas encruzilhadas. São bonitas e muito bem conduzidas as escolhas de direção e dramaturgia de Igor Mattos, que faz a brincadeira encontrar o ritual e abre espaço para que a imaginação conduza histórias e memórias tantas silenciadas, nas interpretações marcantes de Terra Santos e Vania Silva.

Desde o início, chamam atenção o figurino de Rosa dos Anjos, os desenhos de luz de Juliana Amorim, a maquiagem de Getúlio Nascimento e os elementos cênicos que compõem um conjunto harmonioso na encenação. As garrafas, o alguidar e a ocupação da boca de cena desenham um território próprio, um espaço que nos convida a atravessar a encruzilhada junto com essas figuras e seus universos periféricos.

A presença da instrumentista Nathália Vilela é outra grande potência da cena. Conduzindo a narrativa com o atabaque, ela sustenta o ritmo e a pulsação do espetáculo. Em tradições de matriz africana, o tambor é memória, comunicação e vida; é coração que pulsa. Ver uma mulher ocupando esse lugar de diálogo ancestral amplia a experiência sensorial e também a dimensão política da obra. Sua presença não apenas acompanha a ação, mas fortalece a atmosfera ritual que atravessa toda a encenação.

Também chama atenção a delicadeza com que o espetáculo aborda questões sensíveis, urgentes e temas complexos atravessados pela escuta, pela imaginação e cuidado.

Como continuidade dessa pesquisa, a dramaturgia e a direção podem aprofundar as narrativas ligadas às entidades que habitam a cena e mergulhar nas relações entre Teatro Neo-Absurdo e Teatro Documental, ampliando a presença e a força dessas histórias no palco. Da mesma maneira, um olhar mais atento para a cosmologia de Exu tende a enriquecer o jogo das intérpretes e a dimensão ritual da obra, potencializando o uso de elementos como o alguidar, e o sagrado que abriga as oferendas, assim como as garrafas presentes ao longo da encenação. Estas, na cultura vodun Jeje, não se limitam à função de recipientes, mas carregam uma dimensão sagrada de ser o próprio assentamento onde a divindade ou o espírito habita. Como manusear de forma precisa o sagrado? Nesse percurso, a pesquisa dialoga com reflexões de Leda Maria Martins sobre ‘oralitura’, ‘corpo-tela’ e ‘tempo espiralar’, além de estabelecer aproximações com o Teatro Preto de Candomblé desenvolvido por Onisajé e com experiências contemporâneas como Menina Mojubá, espetáculo que se tornou uma importante referência da cena carioca na pesquisa sobre Teatro de Terreiro. São referências capazes de expandir uma investigação que já demonstra identidade, sensibilidade e potência próprias.

Mirins cria imagens marcantes e encontra bonitos caminhos para falar de memória, espiritualidade e resistência. É um trabalho que pulsa com força e deixa no público o desejo de acompanhar os próximos passos desse trabalho necessário.

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Ratos e Urubus é uma cena arrebatadora que impacta pela escolha de sua temática: a potência dos corpos negros que constroem e sustentam o carnaval. Ao abordar comunidade, resistência e a maior festa popular brasileira, o espetáculo lança um olhar crítico sobre suas transformações, problematizando a relação entre apropriação cultural e o protagonismo daqueles que fazem da festa um espaço de criação, memória e pertencimento.

Na direção, dramaturgia e atuação, Ramon Cazuza toma como referência o emblemático enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, apresentado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1989 sob criação de Joãosinho Trinta. Ao recuperar esse marco da história do carnaval brasileiro, a montagem reforça a dimensão política da avenida como espaço de denúncia e disputa de narrativas.

Essa perspectiva se amplia com a presença de uma mulher à frente da bateria, gesto que desloca estruturas historicamente patriarcais. As passistas e a porta-bandeira evocam resistência, ancestralidade e axé, sustentando a força simbólica da cena e afirmando a realeza negra presente no universo do samba.

Ao lado de Ramon, Larissa Magalhães, Lorrayne Kaye, Bebel Ribas e Brenda Gabrielle demonstram vigor, inteligência cênica, harmonia e forte senso de coletividade, qualidades visíveis na forma como o grupo executa as coreografias com precisão e traduz em movimento as camadas simbólicas da obra, criando imagens de grande impacto.

A trilha sonora, assinada por Rafael Silvestre, Allan Arcânjo e Ramon Cazuza, intensifica a experiência do público ao dialogar com o figurino e a cenografia de Sérgio Ribas e Ivone Oliveira. Juntos, esses elementos recriam o imaginário da Sapucaí e mantêm pulsando o coração do samba, transformando o palco em um território de celebração e resistência.

A montagem denuncia e anuncia; questiona e celebra, tudo ao mesmo tempo! O resultado é uma cena potente e emocionante, que faz o coração do espectador gingar junto ao samba e que reafirma o carnaval como espaço de luta, pertencimento e construção de futuros.

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