Crítica por Dani Câmara
“Tela Preta”, com direção de Jônatas Fernando, é um trabalho que chama atenção logo de início por abordar um tema profundamente contemporâneo: a relação mediada pelas telas e os atravessamentos emocionais que essa dinâmica provoca nas relações familiares. A peça constrói, entre lembranças e silêncios, a convivência entre mãe e filho marcada por distâncias afetivas, desenhando em cena um retrato sensível da solidão e da desconexão no tempo presente.
Há uma atmosfera de pesadelo que atravessa a encenação e que aparece especialmente na forma como os atores Lívia Santos e Henry Stieboldt desenham seus corpos e estados em cena. Os momentos de tensão, devaneio e lembrança possuem potência imagética e emocional, criando nuances fortes entre realidade, sonho e colapso. Esse aspecto do trabalho revela muitas possibilidades de aprofundamento, sobretudo na exploração de um corpo extracotidiano que já aparece em cena e que pode ser ainda mais expandido, acentuando as epifanias, rupturas e deslocamentos internos presentes na narrativa. Nesse contexto, vemos a maturidade cênica de Lívia Santos, que carrega grande carga dramática e sustenta momentos importantes da encenação com firmeza e sensibilidade nas escolhas cênicas.
A cenografia e o figurino também são destaques do espetáculo. Existe uma construção estética muito coerente entre os elementos visuais, criando uma atmosfera de suspensão capaz de transportar o público para um universo paralelo, com referências que dialogam tanto com a ficção científica quanto com o imaginário digital contemporâneo. O uso de texturas, formas e referências visuais ligadas ao universo tecnológico acrescenta novas camadas à proposta da obra e demonstra um cuidado estético muito consistente na encenação.
Ao mesmo tempo, surge uma questão interessante sobre a presença da imagem do celular como elemento cenográfico. Fica a provocação: seria possível traduzir a experiência do feed, da hiperconexão e do esgotamento digital através de outras soluções corporais, sonoras, luminosas ou espaciais que já funcionam muito bem no trabalho? De toda forma, o espetáculo só tem a ganhar ao aprofundar ainda mais essa pesquisa visual, que já se mostra bastante potente. A exploração do figurino, da cenografia e dos objetos cênicos, aliada a escolhas mais precisas na movimentação e no uso do espaço pelos atores, pode ampliar ainda mais as sensações de aprisionamento, isolamento e fragmentação emocional que atravessam a peça. É justamente nessa articulação entre estética, atuação e atmosfera que Tela Preta revela a força de sua identidade cênica singular.
Tela Preta é um trabalho original e atual. Um espetáculo que já apresenta uma identidade muito própria, revelando potência estética e força narrativa promissora.
O trabalho acerta na composição narrativa e chama atenção pela maneira como organiza as ações em palco sem perder ritmo e força. Existe uma fluidez que conecta palavra, interação com o público e deslocamento de forma orgânica, com soluções criativas que potencializam a linguagem da obra.
A encenação entende o corpo como elemento central de expressão, fica evidente na elaboração das relações em cena: Fernanda e Lucas Cruz conduzem muito bem uns aos outros através de movimentos coreografados que transitam entre dança, construção de imagem e teatralidade. Essa elaboração física amplia as possibilidades expressivas da montagem e sustenta com equilíbrio tanto a comicidade quanto a crítica presente no trabalho.
O Manual de Sobrevivência da Mulher do Século XXI cria uma experiência envolvente, bem estruturada e comunicativa. É muito bom perceber a força do teatro como espaço de reflexão, capaz de provocar o público através da ironia, do humor e da potência do jogo cênico.
Em “Jongo Funk — Nossa Conexão é Ancestral”, a família Bandeira transforma o palco em território de memória, afeto e celebração da cultura popular brasileira. Com direção e dramaturgia de Marcos Bandeira, o espetáculo reúne diferentes gerações da própria família em uma experiência atravessada pela ancestralidade, pela dança e pela autobiografia.
É profundamente necessário e potente escolher a própria família como centro da narrativa. O espetáculo pulsa justamente nesse encontro entre as histórias pessoais e a permanência das manifestações culturais afro-brasileiras como espaços de resistência, memória e poder. Cada integrante carrega em cena não apenas um personagem, mas sua própria presença, sua história e sua memória afetiva, criando momentos de verdade e conexão direta com o público, que também se reconhece nas trajetórias desses corpos negros que brilham em cena.
O brilho de cada corpo revela um trabalho construído a partir da valorização da cultura popular como continuidade de existência e identidade. A dança aparece como eixo fundamental da encenação. É através do corpo que o espetáculo encontra sua comunicação mais forte, principalmente pela mistura de ritmos e manifestações como o Jongo, o samba, a capoeira e o funk, revelando como cada artista domina a dimensão ritual e coletiva dessas expressões culturais.
Lu Bandeira, Larissa Bandeira, Yolanda Bandeira entregam presença, encanto e potência. É muito bonito assistir ao encontro de diferentes gerações em cena e perceber a força singular de cada uma delas dentro da construção coletiva do espetáculo.
Como sugestão, o espetáculo pode ganhar ainda mais força ao refinar sua dramaturgia cênica e seus recursos teatrais. A pergunta que surge é: como seguir lapidando a construção das cenas, fortalecendo as atuações e ampliando as possibilidades de investigação entre texto e presença? Esse aprofundamento pode evidenciar ainda mais a potência da obra e fortalecer sua dimensão artística.
“Jongo Funk — Nossa Conexão é Ancestral” é lindo, envolvente e alegre. Uma celebração da memória e da permanência da cultura ancestral através da arte.
atravessada pela experiência autobiográfica da artista Lara Louise. Ver o trabalho nascer da Companhia Fábrica de Atores também revela a força de uma formação artística construída em comunidade. Havia algo muito bonito no encontro daquele dia: a sensação de uma plateia que não apenas assistia, mas torcia, se reconhecia e se implicava afetivamente na trajetória da artista. Isso também é teatro. Isso também é construção cultural.
Lara Louise é dona de muita presença cênica, inteligência dramatúrgica e uma escrita que combina delicadeza, humor e acidez. Ao lado de Le Felipe, que também assina a dramaturgia e a direção da cena, constrói uma obra rica justamente pela maneira como transforma experiências pessoais em linguagem artística. Ao trazer para o centro da narrativa a experiência de uma atriz autista, o trabalho amplia discussões sobre acessibilidade, subjetividade e identidade, criando uma dramaturgia que nasce da urgência de existir, ocupar espaços e falar de si.
Existe algo muito valioso quando artistas assumem suas próprias narrativas como matéria de criação. Em tempos em que tantas vozes historicamente silenciadas reivindicam espaço, é urgente que cada pessoa possa construir suas próprias formas de contar o mundo. E Lara faz isso com autonomia e presença, criando uma espécie de ritual compartilhado com o público. Suas interações são certeiras, espontâneas e fortalecem a conexão da cena com a plateia, aproximando com humor a história em uma relação direta e muito bem conduzida com o espectador.
Há momentos em que o corpo cria imagens muito bonitas com a luz criativa de Alexandre O. Gomes. As atmosferas construídas pela iluminação ampliam os estados da cena.
A construção imagética de cenário, figurino e visagismo também chama atenção. O trabalho desenvolvido por O Grupo e Alessandra Fernandes, junto à maquiagem assinada por Maria Eduarda Portugal, contribui para criar uma atmosfera simbólica e expressiva que fortalece a identidade estética da cena. A figura da bruxa aparece inicialmente vinculada ao imaginário clássico: a vassoura, os signos das histórias fantásticas, a personagem marginalizada dos contos populares. Essa escolha ativa referências imediatas e estabelece uma comunicação rápida com o espectador.
Ao mesmo tempo, surge uma provocação: como essa jovem artista, moradora da Baixada Fluminense, pode reinventar seus próprios arquétipos de bruxa? Que outras imagens, corporalidades, espiritualidades e referências contemporâneas — ou não — poderiam atravessar essa construção? Talvez a potência do trabalho esteja justamente na possibilidade de aproximar essa bruxa de territórios mais íntimos, urbanos e brasileiros, ampliando ainda mais as camadas simbólicas e subjetivas da personagem.
Fica também a sensação de que algumas movimentações cênicas podem ser ainda mais exploradas nas transições físicas da personagem, permitindo que o trabalho corporal ganhe novos contornos e aprofunde ainda mais a expressividade da cena.
“Nenhuma Mulher Nasce Bruxa” revela uma artista com voz própria, coragem estética e desejo de comunicação. E sua maior potência está justamente na capacidade de transformar experiência pessoal em encontro coletivo, fazendo da cena um espaço de escuta, invenção e pertencimento.


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