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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRITICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 24/05

 



Crítica por Dani Câmara 


Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 24 de Maio de 2025

 


As Coisas Que Não Disse a Você convida o público a voltar para a infância por meio da imaginação, das lembranças e do brincar. Em cena, um coro coeso formado por Del Barreto, Laura Daniele, Lisa Lian, Maíra Kirozowski e Nicolas Rodrigues constrói um universo delicado, evocando memórias da escola, das brincadeiras coletivas, das cantigas e dos afetos que atravessam essa fase da vida.

A maquiagem minimalista, as escolhas cromáticas do figurino e as imagens construídas em cena revelam a força do processo de criação coletiva que atravessa o espetáculo. Esses elementos compõem uma unidade visual capaz de abrir portais para o território da memória, contribuindo para a construção de uma atmosfera sensível e poética. São escolhas precisas que fortalecem a identidade estética da obra e evidenciam a sintonia do grupo na elaboração de sua linguagem cênica.

As imagens construídas a partir das brincadeiras de corda e do cabo de guerra trazem beleza e força. Em diálogo com a iluminação, com os áudios produzidos durante a pesquisa e com a sensível trilha sonora de Déo Barreto e Lizza Lian, a encenação cria uma atmosfera lírica que desperta memórias e afetos. Corpo, som e imagem articulam-se de forma orgânica, transformando a cena em um espaço de partilha.

Em futuras investigações, talvez o trabalho possa recorrer ainda mais à dramaturgia em torno das memórias guardadas. Esses fragmentos que aos poucos emergem e reverberam entre os personagens poderiam ganhar contornos mais definidos em diálogo com a encenação, ampliando o impacto emocional e os percursos dramatúrgicos propostos. Da mesma forma, a relação entre texto, corpo, espaço e a expressiva e marcante cenografia de Laura Daniele Borges apresenta possibilidades de expansão, ampliando a presença dessas lembranças no espaço cênico.

Delicado e repleto de imagens marcantes, o espetáculo encontra na infância uma forma de refletir sobre afeto e imaginação. É uma obra de grande sensibilidade poética, que já demonstra consistência em sua proposta e revela ainda mais potencial para alcançar camadas profundas em seu desenvolvimento. Avante! Que a pesquisa siga ampliando e se fortalecendo no fazer e no encontro com o espectador! Vocês nos emocionam!

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Memórias Trancadas aposta na linguagem do teatro do absurdo para construir uma cena instigante e repleta de imagens. Em cena, dois atores e uma porta são suficientes para criar um universo que desafia a lógica cotidiana e convida o público a mergulhar em uma atmosfera marcada pela imaginação e pelo estranhamento.

Logo nos primeiros momentos, chama atenção a composição física dos intérpretes e a maneira como seus corpos ocupam o espaço. Jéssica Alves, no papel de Anne, e Mauro Faria, interpretando Bruno, demonstram domínio do jogo cênico proposto, transitando com precisão entre atuação, narração e construção de imagens corporais. Há uma escuta mútua constante que sustenta a dinâmica da encenação e mantém o interesse da plateia ao longo da apresentação.

A direção de Bruna Ponciano é marcada pelos desenhos cênicos construídos no espaço em diálogo com a cenografia e a dramaturgia também assinados por ela, elementos centrais da encenação. Mais do que um objeto de cena, a porta organiza o espaço, cria tensões e abre múltiplas possibilidades de leitura da obra. A partir dos deslocamentos, das aproximações e da exploração dos gestos dos atores, a direção compõe uma dramaturgia que cria um universo simbólico e amplia a potência das imagens apresentadas.

Outro ponto de destaque é o figurino: os pesos, as texturas e os sons produzidos pelas chaves incorporadas ao traje funcionam como uma espécie de sonoplastia viva, preenchendo o espaço e acrescentando novas camadas ao jogo teatral. Essa relação entre corpo, vestimenta e sonoridade encontra ressonância na trilha sonora organizada por Juliana Lacerda, que acompanha as ações do elenco e contribui para a construção da atmosfera proposta.

A iluminação de Juliana Amorim e a maquiagem de Milla Villela também merecem reconhecimento pela forma como criam recortes que ampliam a dimensão poética da montagem e reforçam a força visual das imagens apresentadas.

Como sugestão para novas apresentações, a pesquisa pode aprofundar ainda mais as possibilidades simbólicas da porta. Sendo um objeto tão carregado de significados, o que aconteceria se suas aberturas fossem mais raras? Como essa escolha poderia alterar a expectativa do público e intensificar o jogo já estabelecido em cena? Um texto mais curto talvez possa proporcionar uma intensificação do conjunto já harmônico do espetáculo.

São caminhos férteis de pesquisa em um trabalho que possui grande consistência estética e inventividade. Parabéns a toda a equipe criativa pela pesquisa e pelo trabalho corajoso.

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Era Uma Vez um Ombro Esquerdo que Vivia Dentro do Armário é belo, divertido e político. Desde os primeiros momentos, as cores vibrantes criam múltiplos arco-íris LGBTQIA+ em cena, transformando o espaço em um território de afirmação e resistência.

A obra parte de corpos que decidem se mostrar ao mundo, enfrentando os pesos das normas sociais que buscam enquadrá-los. A partir dessa temática, a encenação constrói situações envolventes e divertidas. Aline Alli, responsável pela dramaturgia, direção e iluminação, articula com leveza o conjunto visual e poético que sustenta a fábula e fortalece a identidade estética do espetáculo. As composições criadas no palco possuem força suficiente para conduzir a narrativa, o que me faz questionar a necessidade de algumas ações na plateia para além dos momentos de interação direta com o público.

E, ao falar dessa interação, está aí um dos maiores acertos do trabalho: o coro. A partir das alegorias que compõem a encenação, o grupo cria momentos de forte presença e cumplicidade com o público, brincando com os corpos, os ritmos e as imagens da cena. O elenco, formado por Ayana Dias, Fab Ribeiro, Ju Sabioni, Letícia Ambrósio, Lu Alves, Rangel Andrade e Verenna Ribeiro, ocupa o espaço com humor e irreverência, fazendo do movimento coletivo um dos pilares do espetáculo.

A cenografia e os adereços de Ayana Dias, Halyson Félix e Verenna Ribeiro apresentam soluções inventivas, como a boca que funciona como caixa de som, elemento plenamente integrado à estética do espetáculo. Os guarda-chuvas e leques multicoloridos ampliam o imaginário visual da cena, enquanto o figurino da Mal Amados Coletiva de Teatro reafirma o poder das cores na construção de narrativas e afetos.

Pergunto-me como os guarda-chuvas poderiam assumir uma função ainda mais ativa na composição do coro que já funciona muito, ampliando a criação de desenhos cênicos e imagens coletivas de maior complexidade. Da mesma forma, um refinamento na relação entre a dramaturgia textual e a dramaturgia do corpo pode fortalecer ainda mais a coesão da encenação.

A trilha sonora de Lu Alves já conduz a cena com sensibilidade e precisão, e pode ocupar um lugar ainda mais decisivo na construção dramatúrgica do espetáculo que é lindo.

Que a obra siga abrindo espaços de diálogo a partir de sua temática necessária, produzindo encontros e fortalecendo a visibilidade de corpos, histórias e existências que ocupam o mundo com liberdade, cor e imaginação.

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Mingau Futebol Clube é uma cena que envolve pela unidade construída entre dramaturgia, direção e a orientação de Eduardo Vaccari. A partir do texto de Lilian Guerra, que lança um olhar sensível e profundo sobre a periferia e seus corpos insurgentes, a montagem desenvolve uma narrativa capaz de gerar identificação imediata com o público. Essa proximidade é fortalecida pelo trabalho dos atores Matheus Teles, Luane Flores, Tito Cordeiro e Edgar Bernardo, artistas disponíveis e curiosos em cena, que conduzem as ações com teatralidade e energia.

A composição visual chama a atenção de nós espectadores. O figurino, assinado por Ricardo Melchiades, e a cenografia de Bruno Silvestre dialogam de forma harmoniosa, criando uma identidade estética marcante. Merecem atenção especial o gol e a rede posicionados no centro da cena, elementos que evocam memórias ligadas aos territórios periféricos e à paixão pelo futebol que atravessa a cultura brasileira. Mais do que simples objetos cenográficos, esses recursos funcionam como dispositivos de afeto e reconhecimento, aproximando a plateia das experiências apresentadas e ampliando a dimensão simbólica da obra.

Como público fica a sensação de que a cena pode investir ainda mais no processo de adaptação dramatúrgica. Em determinados momentos, a relação entre Leleco e Pinguinho perde parte de sua complexidade. Embora a amizade entre os personagens esteja claramente delineada, permanece no espectador o desejo de acessar com maior profundidade os afetos, conflitos e vínculos que os conectam e os desconectam. Explorar essas camadas pode acentuar o caráter de denúncia presente na obra quanto a conexão emocional do público com a trajetória dos personagens.

Outro aspecto relevante é a relação estabelecida entre os artistas e o público. A maneira como conduzem as situações cênicas e mobilizam a participação da plateia revela segurança e domínio da narrativa que só tendem a ganhar se seguirem sendo explorados no trabalho. Trata-se de uma cena adaptável, capaz de capturar a atenção por meio da força de seu coletivo e da expressividade de suas imagens, muito bem criadas pela iluminação de Manuela Scart e pela operação de luz de Bruno Silvestre. Uma aposta que traz sensibilidade narrativa, costurada muito bem pela trilha sonora de Matheus Teles.

Necessária a forma como o espetáculo se propõe a evidenciar histórias e vivências de meninos negros periféricos, contribuindo para o fortalecimento de narrativas que precisam ocupar cada vez mais espaço nos palcos. Que a pesquisa siga circulando e ampliando suas possibilidades de criação esse encontro necessário com o público!


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