Crítica por Dani Câmara
Rio de Janeiro, Marechal Hermes |
Dia 24 de Maio de 2025
A maquiagem minimalista, as escolhas
cromáticas do figurino e as imagens construídas em cena revelam a força do
processo de criação coletiva que atravessa o espetáculo. Esses elementos
compõem uma unidade visual capaz de abrir portais para o território da memória,
contribuindo para a construção de uma atmosfera sensível e poética. São
escolhas precisas que fortalecem a identidade estética da obra e evidenciam a
sintonia do grupo na elaboração de sua linguagem cênica.
As imagens construídas a partir das
brincadeiras de corda e do cabo de guerra trazem beleza e força. Em diálogo com
a iluminação, com os áudios produzidos durante a pesquisa e com a sensível
trilha sonora de Déo Barreto e Lizza Lian, a encenação cria uma atmosfera
lírica que desperta memórias e afetos. Corpo, som e imagem articulam-se de
forma orgânica, transformando a cena em um espaço de partilha.
Em futuras investigações, talvez o
trabalho possa recorrer ainda mais à dramaturgia em torno das memórias
guardadas. Esses fragmentos que aos poucos emergem e reverberam entre os
personagens poderiam ganhar contornos mais definidos em diálogo com a
encenação, ampliando o impacto emocional e os percursos dramatúrgicos
propostos. Da mesma forma, a relação entre texto, corpo, espaço e a expressiva
e marcante cenografia de Laura Daniele Borges apresenta possibilidades de
expansão, ampliando a presença dessas lembranças no espaço cênico.
Delicado e repleto de imagens
marcantes, o espetáculo encontra na infância uma forma de refletir sobre afeto
e imaginação. É uma obra de grande sensibilidade poética, que já demonstra
consistência em sua proposta e revela ainda mais potencial para alcançar
camadas profundas em seu desenvolvimento. Avante! Que a pesquisa siga ampliando
e se fortalecendo no fazer e no encontro com o espectador! Vocês nos emocionam!
_________________________________________________________________________
Logo nos primeiros momentos, chama
atenção a composição física dos intérpretes e a maneira como seus corpos ocupam
o espaço. Jéssica Alves, no papel de Anne, e Mauro Faria, interpretando Bruno,
demonstram domínio do jogo cênico proposto, transitando com precisão entre
atuação, narração e construção de imagens corporais. Há uma escuta mútua
constante que sustenta a dinâmica da encenação e mantém o interesse da plateia
ao longo da apresentação.
A direção de Bruna Ponciano é
marcada pelos desenhos cênicos construídos no espaço em diálogo com a
cenografia e a dramaturgia também assinados por ela, elementos centrais da
encenação. Mais do que um objeto de cena, a porta organiza o espaço, cria
tensões e abre múltiplas possibilidades de leitura da obra. A partir dos
deslocamentos, das aproximações e da exploração dos gestos dos atores, a
direção compõe uma dramaturgia que cria um universo simbólico e amplia a
potência das imagens apresentadas.
Outro ponto de destaque é o
figurino: os pesos, as texturas e os sons produzidos pelas chaves incorporadas
ao traje funcionam como uma espécie de sonoplastia viva, preenchendo o espaço e
acrescentando novas camadas ao jogo teatral. Essa relação entre corpo,
vestimenta e sonoridade encontra ressonância na trilha sonora organizada por
Juliana Lacerda, que acompanha as ações do elenco e contribui para a construção
da atmosfera proposta.
A iluminação de Juliana Amorim e a
maquiagem de Milla Villela também merecem reconhecimento pela forma como criam
recortes que ampliam a dimensão poética da montagem e reforçam a força visual
das imagens apresentadas.
Como sugestão para novas apresentações,
a pesquisa pode aprofundar ainda mais as possibilidades simbólicas da porta.
Sendo um objeto tão carregado de significados, o que aconteceria se suas
aberturas fossem mais raras? Como essa escolha poderia alterar a expectativa do
público e intensificar o jogo já estabelecido em cena? Um texto mais curto
talvez possa proporcionar uma intensificação do conjunto já harmônico do
espetáculo.
São caminhos férteis de pesquisa em
um trabalho que possui grande consistência estética e inventividade. Parabéns a
toda a equipe criativa pela pesquisa e pelo trabalho corajoso.
_________________________________________________________________________
A obra parte de corpos que decidem
se mostrar ao mundo, enfrentando os pesos das normas sociais que buscam
enquadrá-los. A partir dessa temática, a encenação constrói situações
envolventes e divertidas. Aline Alli, responsável pela dramaturgia, direção e
iluminação, articula com leveza o conjunto visual e poético que sustenta a
fábula e fortalece a identidade estética do espetáculo. As composições criadas
no palco possuem força suficiente para conduzir a narrativa, o que me faz
questionar a necessidade de algumas ações na plateia para além dos momentos de
interação direta com o público.
E, ao falar dessa interação, está aí
um dos maiores acertos do trabalho: o coro. A partir das alegorias que compõem
a encenação, o grupo cria momentos de forte presença e cumplicidade com o
público, brincando com os corpos, os ritmos e as imagens da cena. O elenco,
formado por Ayana Dias, Fab Ribeiro, Ju Sabioni, Letícia Ambrósio, Lu Alves,
Rangel Andrade e Verenna Ribeiro, ocupa o espaço com humor e irreverência,
fazendo do movimento coletivo um dos pilares do espetáculo.
A cenografia e os adereços de Ayana
Dias, Halyson Félix e Verenna Ribeiro apresentam soluções inventivas, como a
boca que funciona como caixa de som, elemento plenamente integrado à estética
do espetáculo. Os guarda-chuvas e leques multicoloridos ampliam o imaginário
visual da cena, enquanto o figurino da Mal Amados Coletiva de Teatro reafirma o
poder das cores na construção de narrativas e afetos.
Pergunto-me como os guarda-chuvas
poderiam assumir uma função ainda mais ativa na composição do coro que já
funciona muito, ampliando a criação de desenhos cênicos e imagens coletivas de
maior complexidade. Da mesma forma, um refinamento na relação entre a
dramaturgia textual e a dramaturgia do corpo pode fortalecer ainda mais a
coesão da encenação.
A trilha sonora de Lu Alves já
conduz a cena com sensibilidade e precisão, e pode ocupar um lugar ainda mais
decisivo na construção dramatúrgica do espetáculo que é lindo.
Que a obra siga abrindo espaços de
diálogo a partir de sua temática necessária, produzindo encontros e
fortalecendo a visibilidade de corpos, histórias e existências que ocupam o
mundo com liberdade, cor e imaginação.
_________________________________________________________________________
A composição visual chama a atenção
de nós espectadores. O figurino, assinado por Ricardo Melchiades, e a
cenografia de Bruno Silvestre dialogam de forma harmoniosa, criando uma
identidade estética marcante. Merecem atenção especial o gol e a rede
posicionados no centro da cena, elementos que evocam memórias ligadas aos
territórios periféricos e à paixão pelo futebol que atravessa a cultura
brasileira. Mais do que simples objetos cenográficos, esses recursos funcionam
como dispositivos de afeto e reconhecimento, aproximando a plateia das
experiências apresentadas e ampliando a dimensão simbólica da obra.
Como público fica a sensação de que
a cena pode investir ainda mais no processo de adaptação dramatúrgica. Em
determinados momentos, a relação entre Leleco e Pinguinho perde parte de sua
complexidade. Embora a amizade entre os personagens esteja claramente
delineada, permanece no espectador o desejo de acessar com maior profundidade
os afetos, conflitos e vínculos que os conectam e os desconectam. Explorar
essas camadas pode acentuar o caráter de denúncia presente na obra quanto a
conexão emocional do público com a trajetória dos personagens.
Outro aspecto relevante é a relação
estabelecida entre os artistas e o público. A maneira como conduzem as
situações cênicas e mobilizam a participação da plateia revela segurança e
domínio da narrativa que só tendem a ganhar se seguirem sendo explorados no
trabalho. Trata-se de uma cena adaptável, capaz de capturar a atenção por meio
da força de seu coletivo e da expressividade de suas imagens, muito bem criadas
pela iluminação de Manuela Scart e pela operação de luz de Bruno Silvestre. Uma
aposta que traz sensibilidade narrativa, costurada muito bem pela trilha sonora
de Matheus Teles.
Necessária a forma como o espetáculo
se propõe a evidenciar histórias e vivências de meninos negros periféricos,
contribuindo para o fortalecimento de narrativas que precisam ocupar cada vez
mais espaço nos palcos. Que a pesquisa siga circulando e ampliando suas
possibilidades de criação esse encontro necessário com o público!

.jpg)
.jpg)



Nenhum comentário:
Postar um comentário
Obrigada por comentar!!!!!!!