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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRITICAS TEATRAIS - POR DANI CÂMARA - 23/05/2026



Crítica por Dani Câmara 


Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 23 de maio de 2026

 


Pêndulo Suburbano” é uma cena de grande potência política e poética ao transformar a experiência autobiográfica de seu intérprete em matéria teatral. O que primeiro chama atenção é a presença cênica de Eduardo, que domina o espaço por meio da voz, do corpo e da precisão dos gestos. Sua voz alcança todo o teatro, sustentando uma narrativa que combina comicidade, denúncia e afeto, em um constante movimento de anunciação.

Há uma inteligência cênica notável na forma como o ator utiliza seu próprio repertório corporal para construir a dramaturgia e os momentos sonoros. O domínio da voz, dos gestos e das ações escolhidas para a cena evidencia a pesquisa do ator sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca. A encenação de Ygor Fortino e Luis Fernando Rocha, junto à iluminação de Nana Pereira, aposta em uma cena bem desenhada, permitindo que o corpo e a palavra assumam centralidade. O figurino de Ster Tonini — um macacão que remete ao universo operário, acompanhado da mochila — reforça a identidade do espetáculo e dialoga diretamente com a figura do trabalhador e do estudante que circulam pela cidade.

A autobiografia surge como um elemento potente, não apenas por revelar experiências pessoais, mas por transformá-las em linguagem artística capaz de gerar identificação e reflexão. O resultado é um trabalho que estabelece forte diálogo com o território onde é apresentado. Em uma mostra realizada em Marechal Hermes, por exemplo, a narrativa encontra ressonância imediata junto ao público que compartilha, em diferentes níveis, experiências semelhantes de deslocamento, trabalho e luta cotidiana.

Ao mesmo tempo em que denuncia estruturas de desigualdade, “Pêndulo Suburbano” preserva um lirismo delicado. O projeto constrói um corpo insurgente que fala de resistência sem abrir mão da esperança. Há uma dimensão sensível que atravessa toda a montagem, permitindo que o espetáculo dialogue tanto com questões urgentes da realidade brasileira quanto com aspectos profundamente humanos da experiência de existir e sonhar.

Como possibilidade de aprofundamento, o trabalho pode seguir investigando a construção gestual ligada aos percursos realizados pelo personagem ao longo da cidade, assumindo um texto mais curto. O que pode ser dito pelos gestos sem o texto? Como a encenação já opera com gestos bastante precisos e simbólicos, um refinamento ainda maior desses movimentos, junto à dramaturgia — especialmente nos momentos que evocam os deslocamentos de trem e os trajetos cotidianos — pode potencializar a experiência do espectador. Não se trata apenas de aprimorar uma técnica, mas de fortalecer a relação entre gesto, memória e emoção, ampliando a capacidade da cena de conduzir o público para dentro da experiência vivida.

“Pêndulo Suburbano” é um trabalho especial e toca direto o coração de quem assiste. Reafirma a potência do teatro como espaço de escuta, reflexão e transformação, dando voz a narrativas que historicamente atravessam a cidade, mas que nem sempre encontram lugar de fala na vida e nos palcos. Parabéns a toda a equipe!

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“Respira” - COMO É LINDO O CORPO NEGRO EM CENA - É um trabalho de rara beleza, um coletivo em sua maioria negro, construído com brilho, sutileza e sensibilidade. Desde os primeiros instantes, a obra revela uma pesquisa cênica consistente e profundamente autoral. A cena inicial, produz um impacto imediato. Há algo fascinante na maneira como os intérpretes se comunicam sem recorrer à palavra falada, explorando gestos, respirações e presenças que transformam o corpo em linguagem.

Trata-se de uma obra que constrói sua narrativa a partir da dramaturgia do corpo, situada entre o teatro e a dança, em uma investigação sensível da presença e do movimento.

A unidade entre os intérpretes - elenco, coro formado por Sol Sussuarana, Felipe Izidoro, Victor Lucas, Luana Hyuuga, Alleker Soares, José Reis, Maias demonstra grande precisão técnica e expressiva, entregando performances marcadas pela presença. É um dos grandes destaques da montagem. Existe uma escuta coletiva muito forte, que sustenta a cena e fortalece a expressividade do conjunto.

Nesse diálogo entre teatro e dança, o espetáculo nos convida a perceber o corpo como território de poder, capaz de produzir ruídos, sons, imagens e significados sem depender exclusivamente da palavra. É um trabalho que merece continuar circulando e alcançando novos públicos.

A direção de José Reis, acerta na forma como organiza a encenação, construindo uma composição equilibrada. A Cenografia de Thiago Pinheiro e figurino de José Reis e Caio Cone dialogam de maneira harmoniosa com a proposta estética da obra, enquanto a trilha sonora de Júlia Storino, José Arthur Fernandes e Bruno Rangel e iluminação de Wellington Fox ampliam as camadas de sentido da encenação.

Também merece destaque a direção de movimento de Kay Lima, que desenha a cena com forte teatralidade sem abrir mão da dança nem da singularidade de cada artista. Os deslocamentos, as imagens corporais e a composição coletiva revelam uma pesquisa cuidadosa com o universo proposto.

Como provocação para futuras investigações, a obra talvez possa aprofundar ainda mais a pesquisa de maquiagem, ampliando as relações visuais com o universo simbólico construído em cena e fortalecendo algumas das imagens que já se mostram bastante potentes. Da mesma forma, sobre a investigação dos limites entre o som e o silêncio - ao longo do espetáculo os artistas trabalham o quase falar, produzindo vocalidades  que criam atmosferas de intensidade. Como esses recursos poderiam ser explorados a partir de um silêncio ainda mais radical? Como construir suspense, tensão e dramaticidade sem recorrer a qualquer emissão vocal?

Por fim, a proposta de encenação menciona a inclusão da linguagem de sinais (LIBRAS),  na cena. No entanto, esse elemento não se torna perceptível durante a experiência. Fica a curiosidade sobre como essa camada de pesquisa poderia ser inserida e consolidada ou deixada de lado para explorar outras nuances que já existem na cena.

São reflexões que nascem justamente da riqueza das possibilidades que o trabalho apresenta e que revelam um campo fértil para novas experimentações.

Respira é um trabalho que conduz o público por um percurso que transita da beleza ao drama, finalizando em uma espécie de desterro que deixa os espectadores imersos em um universo de silenciamento, convocando uma suspensão final necessária e muito marcante.

É um espetáculo sensível, necessário e impactante. Um trabalho que demonstra o talento de toda a equipe envolvida e reafirma a potência do corpo como espaço de criação, resistência e encontro. Sou grata por ter assistido a uma obra tão bela e significativa.

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Mirins constrói uma experiência cênica singular ao abordar a vida dos Exus Mirins a partir da figura de duas crianças que brincam nas encruzilhadas. São bonitas e muito bem conduzidas as escolhas de direção e dramaturgia de Igor Mattos, que faz a brincadeira encontrar o ritual e abre espaço para que a imaginação conduza histórias e memórias tantas silenciadas, nas interpretações marcantes de Terra Santos e Vania Silva.

Desde o início, chamam atenção o figurino de Rosa dos Anjos, os desenhos de luz de Juliana Amorim, a maquiagem de Getúlio Nascimento e os elementos cênicos que compõem um conjunto harmonioso na encenação. As garrafas, o alguidar e a ocupação da boca de cena desenham um território próprio, um espaço que nos convida a atravessar a encruzilhada junto com essas figuras e seus universos periféricos.

A presença da instrumentista Nathália Vilela é outra grande potência da cena. Conduzindo a narrativa com o atabaque, ela sustenta o ritmo e a pulsação do espetáculo. Em tradições de matriz africana, o tambor é memória, comunicação e vida; é coração que pulsa. Ver uma mulher ocupando esse lugar de diálogo ancestral amplia a experiência sensorial e também a dimensão política da obra. Sua presença não apenas acompanha a ação, mas fortalece a atmosfera ritual que atravessa toda a encenação.

Também chama atenção a delicadeza com que o espetáculo aborda questões sensíveis, urgentes e temas complexos atravessados pela escuta, pela imaginação e cuidado.

Como continuidade dessa pesquisa, a dramaturgia e a direção podem aprofundar as narrativas ligadas às entidades que habitam a cena e mergulhar nas relações entre Teatro Neo-Absurdo e Teatro Documental, ampliando a presença e a força dessas histórias no palco. Da mesma maneira, um olhar mais atento para a cosmologia de Exu tende a enriquecer o jogo das intérpretes e a dimensão ritual da obra, potencializando o uso de elementos como o alguidar, e o sagrado que abriga as oferendas, assim como as garrafas presentes ao longo da encenação. Estas, na cultura vodun Jeje, não se limitam à função de recipientes, mas carregam uma dimensão sagrada de ser o próprio assentamento onde a divindade ou o espírito habita. Como manusear de forma precisa o sagrado? Nesse percurso, a pesquisa dialoga com reflexões de Leda Maria Martins sobre ‘oralitura’, ‘corpo-tela’ e ‘tempo espiralar’, além de estabelecer aproximações com o Teatro Preto de Candomblé desenvolvido por Onisajé e com experiências contemporâneas como Menina Mojubá, espetáculo que se tornou uma importante referência da cena carioca na pesquisa sobre Teatro de Terreiro. São referências capazes de expandir uma investigação que já demonstra identidade, sensibilidade e potência próprias.

Mirins cria imagens marcantes e encontra bonitos caminhos para falar de memória, espiritualidade e resistência. É um trabalho que pulsa com força e deixa no público o desejo de acompanhar os próximos passos desse trabalho necessário.

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Ratos e Urubus é uma cena arrebatadora que impacta pela escolha de sua temática: a potência dos corpos negros que constroem e sustentam o carnaval. Ao abordar comunidade, resistência e a maior festa popular brasileira, o espetáculo lança um olhar crítico sobre suas transformações, problematizando a relação entre apropriação cultural e o protagonismo daqueles que fazem da festa um espaço de criação, memória e pertencimento.

Na direção, dramaturgia e atuação, Ramon Cazuza toma como referência o emblemático enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, apresentado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1989 sob criação de Joãosinho Trinta. Ao recuperar esse marco da história do carnaval brasileiro, a montagem reforça a dimensão política da avenida como espaço de denúncia e disputa de narrativas.

Essa perspectiva se amplia com a presença de uma mulher à frente da bateria, gesto que desloca estruturas historicamente patriarcais. As passistas e a porta-bandeira evocam resistência, ancestralidade e axé, sustentando a força simbólica da cena e afirmando a realeza negra presente no universo do samba.

Ao lado de Ramon, Larissa Magalhães, Lorrayne Kaye, Bebel Ribas e Brenda Gabrielle demonstram vigor, inteligência cênica, harmonia e forte senso de coletividade, qualidades visíveis na forma como o grupo executa as coreografias com precisão e traduz em movimento as camadas simbólicas da obra, criando imagens de grande impacto.

A trilha sonora, assinada por Rafael Silvestre, Allan Arcânjo e Ramon Cazuza, intensifica a experiência do público ao dialogar com o figurino e a cenografia de Sérgio Ribas e Ivone Oliveira. Juntos, esses elementos recriam o imaginário da Sapucaí e mantêm pulsando o coração do samba, transformando o palco em um território de celebração e resistência.

A montagem denuncia e anuncia; questiona e celebra, tudo ao mesmo tempo! O resultado é uma cena potente e emocionante, que faz o coração do espectador gingar junto ao samba e que reafirma o carnaval como espaço de luta, pertencimento e construção de futuros.

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

6ª MOSTRA ASLUCIANAS REUNE TEATRO, MUSICA, DANÇA E MUITOS ARTISTAS NO SUBURBIO DO RIO

 


6ª MOSTRA ASLUCIANAS ENCERRA EDIÇÃO COM CERCA DE 250 ARTISTAS, 1.200 ESPECTADORES E 39 PREMIAÇÕES DISTRIBUÍDAS

A 6ª Mostra Aslucianas encerrou sua programação consolidando-se como um dos mais importantes espaços de valorização da produção artística independente da Zona Norte do Rio de Janeiro. Realizado ao longo de 15 dias, o festival reuniu cerca de 250 artistas e recebeu aproximadamente 1.200 espectadores em atividades realizadas no Teatro Armando Gonzaga e no Parque Madureira.

Fotografia Aline Baptista

Com uma programação diversificada e acessível, a Mostra promoveu apresentações de cenas curtas, espetáculos infantis, números musicais, exibição de curtas-metragens, ações formativas e atividades de integração entre artistas e público. O projeto teve como principal objetivo incentivar a criação artística fluminense, fortalecer o trabalho continuado dos grupos independentes e ampliar o acesso à arte e à cultura em territórios periféricos do subúrbio carioca.

Além das apresentações, o festival ofereceu gratuitamente oficinas de Produção Cultural, Corpo em Movimento e Canto Coral, realizadas no Parque Madureira. As atividades formativas reuniram artistas e estudantes, ampliando o alcance do projeto para além da fruição artística.

Oficina no Parque Madureira

Um dos destaques da 6ª Mostra Aslucianas foi seu compromisso com a acessibilidade e a democratização do acesso à cultura. O festival ofereceu recursos de acessibilidade e ações de mobilidade que permitiram a participação de públicos diversos. Vans vindas de diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro garantiram o acesso de pessoas com deficiência (PCDs), estudantes da rede pública de ensino, crianças atípicas e seus acompanhantes às atividades da programação.

Acessibilidade

A Mostra também contou com uma programação artística de grande relevância, reunindo espetáculos convidados de grupos e artistas que marcaram a trajetória do festival ao longo dos anos. Entre os destaques estiveram as apresentações do Grupo Teatral Aslucianas, anfitrião do evento, que levou ao público os espetáculos "Clarice do Brasil", obra premiada inspirada na vida e na obra de Clarice Lispector, e "A Porta Mágica", espetáculo infantil voltado à valorização da leitura, da criatividade e da imaginação.

Fotografia Michele Beff                                                                                    Clarice do Brasil

A programação audiovisual contou com a exibição online de quatro curtas-metragens. A votação popular registrou 179 votos, somados à avaliação do júri técnico especializado para a definição dos premiados da categoria. Já o Prêmio Aplauso Virtual, destinado às cenas curtas transmitidas por streaming, alcançou 1.108 votos do público, demonstrando o engajamento dos espectadores também no ambiente digital.

Ao todo, foram distribuídas 39 premiações entre as categorias de Curtas-Metragens, Espetáculos Infantis, Cenas Curtas e Premiações Especiais. Entre os destaques da edição estiveram os trabalhos “A Bruxa do Arco do Teles”, vencedor do Júri Popular de Curta-Metragem; “Raios de Sol”, eleito Melhor Espetáculo Infantil; “A Mala de Rubens”, vencedora da categoria Melhor Conjunto pelo Júri Técnico; e “O Auto de Santa Isabel”, escolhido pelo público como Melhor Cena da Mostra.

A avaliação dos trabalhos contou com um júri técnico formado por profissionais de reconhecida trajetória nas artes da cena. Integraram a comissão Anilia Francisca, formada em Artes Cênicas pela UNIRIO, Mestre Profissional em Teatro e Doutora em Artes da Cena pela UFRJ; Leandro Porto, ator, diretor e produtor cultural, formado em Artes Cênicas e pós-graduado em Gestão e Produção Cultural; e Flávia Souza, multiartista, atriz, cantora, coreógrafa, escritora e bacharela em Dança pela UFRJ.

O AUTO DE SANTA ISABEL/ Cia Cage - Vencedor pelo Juri Popular - Categoria Cenas Curtas


A Mostra também contou com o acompanhamento crítico de Dani Câmara, atriz, diretora, curadora e pesquisadora em artes da cena, formada em Direção Teatral pela UFRJ, e Juka Goulart, ator, produtor, dramaturgo, roteirista, figurinista e maquiador. Os críticos acompanharam as apresentações e produzirão registros e reflexões sobre os trabalhos apresentados durante o festival.

A Farra do Boi Bumbá - Vencedor de 4 categorias na Mostra Infantil - Os Ciclomáticos Cia de Teatro

Criada com o propósito de fortalecer a produção artística periférica e descentralizar o acesso à cultura, a Mostra Aslucianas reafirma sua importância como espaço de encontro, formação, circulação e reconhecimento de artistas independentes do estado do Rio de Janeiro. Ao longo de suas edições, o festival vem contribuindo para o fortalecimento das redes culturais, para a formação de público e para a democratização do acesso às artes cênicas.

Artistas na concentração do Festival

A 6ª Mostra Aslucianas foi realizada com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio do Edital Fomenta Festival, reafirmando a importância das políticas públicas de cultura para o desenvolvimento artístico e social dos territórios fluminenses.

NÚMEROS DA 6ª MOSTRA ASLUCIANAS

• 15 dias de programação
• Cerca de 250 artistas participantes
• Aproximadamente 1.200 espectadores presenciais
• 3 oficinas gratuitas realizadas
• 4 curtas-metragens exibidos online
• 179 votos registrados no Júri Popular de Curtas-Metragens
• 1.108 votos registrados no Prêmio Aplauso Virtual das Cenas Curtas transmitidas via streaming
• 39 premiações distribuídas
• 1 júri técnico com 3 especialistas
• 2 críticos convidados para acompanhamento do festival
• Ações de acessibilidade e mobilidade para PCDs, crianças atípicas e estudantes da rede pública
• Espetáculos convidados e apresentações especiais de grupos de referência da cena fluminense

DESTAQUES DA PREMIAÇÃO

Curtas-Metragens

• Melhor Curta-Metragem (Júri Popular): “A Bruxa do Arco do Teles”
• Melhor Direção: Dudu Gehlen – “Judas é Meu Avô”
• Melhor Atuação: Juliana França – “Neguinho”

Espetáculos Infantis

• Melhor Espetáculo: “Raios de Sol”
• Prêmio Júri Mirim: “Família Rebola Bola”
• Melhor Direção: Ribamar Ribeiro – “A Farra do Boi Bumbá”

Cenas Curtas

• Melhor Conjunto (Júri Técnico): “A Mala de Rubens”
• Melhor Cena (Júri Popular): “O Auto de Santa Isabel”
• Melhor Direção: Ramon Cazuza – “Ratos e Urubus”
• Melhor Texto Autoral: Maíra Kirovsk – “As Coisas que Não Disse a Você”                                                     

                                                                           
• Melhor Pesquisa Cênica: “Torra Média”          

Premiações Especiais

• Melhor Produção: “A Menina Dança”
• Prêmio 1º Festival: “Artigos de Luxo”
• Divulga Aê: “Respira”
• Aplauso Virtual: “Tela Preta”
• Prêmio Estudantil: “O Auto de Santa Isabel”

A Mostra Aslucianas segue reafirmando seu compromisso com a formação, a diversidade, a acessibilidade e o fortalecimento da produção cultural fluminense, celebrando a arte produzida nos territórios periféricos e criando oportunidades para artistas de diferentes trajetórias e gerações.

GRUPO TEATRAL ASLUCIANAS

CRÍTICA TEATRAL POR DANI CÂMARA - 22/05/2026



Crítica por Dani Câmara

Apresentado em 22/05/2026


“Tela Preta”, com direção de Jônatas Fernando, é um trabalho que chama atenção logo de início por abordar um tema profundamente contemporâneo: a relação mediada pelas telas e os atravessamentos emocionais que essa dinâmica provoca nas relações familiares. A peça constrói, entre lembranças e silêncios, a convivência entre mãe e filho marcada por distâncias afetivas, desenhando em cena um retrato sensível da solidão e da desconexão no tempo presente. 

Há uma atmosfera de pesadelo que atravessa a encenação e que aparece especialmente na forma como os atores Lívia Santos e Henry Stieboldt desenham seus corpos e estados em cena. Os momentos de tensão, devaneio e lembrança possuem potência imagética e emocional, criando nuances fortes entre realidade, sonho e colapso. Esse aspecto do trabalho revela muitas possibilidades de aprofundamento, sobretudo na exploração de um corpo extracotidiano que já aparece em cena e que pode ser ainda mais expandido, acentuando as epifanias, rupturas e deslocamentos internos presentes na narrativa. Nesse contexto, vemos a maturidade cênica de Lívia Santos, que carrega grande carga dramática e sustenta momentos importantes da encenação com firmeza e sensibilidade nas escolhas cênicas. 

A cenografia e o figurino também são destaques do espetáculo. Existe uma construção estética muito coerente entre os elementos visuais, criando uma atmosfera de suspensão capaz de transportar o público para um universo paralelo, com referências que dialogam tanto com a ficção científica quanto com o imaginário digital contemporâneo. O uso de texturas, formas e referências visuais ligadas ao universo tecnológico acrescenta novas camadas à proposta da obra e demonstra um cuidado estético muito consistente na encenação. 

Ao mesmo tempo, surge uma questão interessante sobre a presença da imagem do celular como elemento cenográfico. Fica a provocação: seria possível traduzir a experiência do feed, da hiperconexão e do esgotamento digital através de outras soluções corporais, sonoras, luminosas ou espaciais que já funcionam muito bem no trabalho? De toda forma, o espetáculo só tem a ganhar ao aprofundar ainda mais essa pesquisa visual, que já se mostra bastante potente. A exploração do figurino, da cenografia e dos objetos cênicos, aliada a escolhas mais precisas na movimentação e no uso do espaço pelos atores, pode ampliar ainda mais as sensações de aprisionamento, isolamento e fragmentação emocional que atravessam a peça. É justamente nessa articulação entre estética, atuação e atmosfera que Tela Preta revela a força de sua identidade cênica singular. 

Tela Preta é um trabalho original e atual. Um espetáculo que já apresenta uma identidade muito própria, revelando potência estética e força narrativa promissora. 



“O Manual de Sobrevivência da Mulher do Século XXI” constrói uma montagem completa. Ao abordar, com inteligência e ironia, um tema que infelizmente permanece urgente. O humor ácido da dramaturgia aparece como ferramenta crítica, expondo violências cotidianas, atravessamentos sociais e tensões que atravessam a experiência feminina contemporânea sob a perspectiva provocadora Fernanda Cunha, que também assina a direção e atua no espetáculo.

O trabalho acerta na composição narrativa e chama atenção pela maneira como organiza as ações em palco sem perder ritmo e força. Existe uma fluidez que conecta palavra, interação com o público e deslocamento de forma orgânica, com soluções criativas que potencializam a linguagem da obra. 

A encenação entende o corpo como elemento central de expressão, fica evidente na elaboração das relações em cena: Fernanda e Lucas Cruz conduzem muito bem uns aos outros através de movimentos coreografados que transitam entre dança, construção de imagem e teatralidade. Essa elaboração física amplia as possibilidades expressivas da montagem e sustenta com equilíbrio tanto a comicidade quanto a crítica presente no trabalho. 

O Manual de Sobrevivência da Mulher do Século XXI cria uma experiência envolvente, bem estruturada e comunicativa. É muito bom perceber a força do teatro como espaço de reflexão, capaz de provocar o público através da ironia, do humor e da potência do jogo cênico. 



Em “Jongo Funk — Nossa Conexão é Ancestral”, a família Bandeira transforma o palco em território de memória, afeto e celebração da cultura popular brasileira. Com direção e dramaturgia de Marcos Bandeira, o espetáculo reúne diferentes gerações da própria família em uma experiência atravessada pela ancestralidade, pela dança e pela autobiografia. 

É profundamente necessário e potente escolher a própria família como centro da narrativa. O espetáculo pulsa justamente nesse encontro entre as histórias pessoais e a permanência das manifestações culturais afro-brasileiras como espaços de resistência, memória e poder. Cada integrante carrega em cena não apenas um personagem, mas sua própria presença, sua história e sua memória afetiva, criando momentos de verdade e conexão direta com o público, que também se reconhece nas trajetórias desses corpos negros que brilham em cena. 

O brilho de cada corpo revela um trabalho construído a partir da valorização da cultura popular como continuidade de existência e identidade. A dança aparece como eixo fundamental da encenação. É através do corpo que o espetáculo encontra sua comunicação mais forte, principalmente pela mistura de ritmos e manifestações como o Jongo, o samba, a capoeira e o funk, revelando como cada artista domina a dimensão ritual e coletiva dessas expressões culturais. 

Lu Bandeira, Larissa Bandeira, Yolanda Bandeira entregam presença, encanto e potência. É muito bonito assistir ao encontro de diferentes gerações em cena e perceber a força singular de cada uma delas dentro da construção coletiva do espetáculo. 

Como sugestão, o espetáculo pode ganhar ainda mais força ao refinar sua dramaturgia cênica e seus recursos teatrais. A pergunta que surge é: como seguir lapidando a construção das cenas, fortalecendo as atuações e ampliando as possibilidades de investigação entre texto e presença? Esse aprofundamento pode evidenciar ainda mais a potência da obra e fortalecer sua dimensão artística. 

“Jongo Funk — Nossa Conexão é Ancestral” é lindo, envolvente e alegre. Uma celebração da memória e da permanência da cultura ancestral através da arte. 


“Nenhuma Mulher Nasce Bruxa” constrói uma cena sensível, forte e potente, profundamente
atravessada pela experiência autobiográfica da artista Lara Louise. Ver o trabalho nascer da Companhia Fábrica de Atores também revela a força de uma formação artística construída em comunidade. Havia algo muito bonito no encontro daquele dia: a sensação de uma plateia que não apenas assistia, mas torcia, se reconhecia e se implicava afetivamente na trajetória da artista. Isso também é teatro. Isso também é construção cultural. 

Lara Louise é dona de muita presença cênica, inteligência dramatúrgica e uma escrita que combina delicadeza, humor e acidez. Ao lado de Le Felipe, que também assina a dramaturgia e a direção da cena, constrói uma obra rica justamente pela maneira como transforma experiências pessoais em linguagem artística. Ao trazer para o centro da narrativa a experiência de uma atriz autista, o trabalho amplia discussões sobre acessibilidade, subjetividade e identidade, criando uma dramaturgia que nasce da urgência de existir, ocupar espaços e falar de si. 

Existe algo muito valioso quando artistas assumem suas próprias narrativas como matéria de criação. Em tempos em que tantas vozes historicamente silenciadas reivindicam espaço, é urgente que cada pessoa possa construir suas próprias formas de contar o mundo. E Lara faz isso com autonomia e presença, criando uma espécie de ritual compartilhado com o público. Suas interações são certeiras, espontâneas e fortalecem a conexão da cena com a plateia, aproximando com humor a história em uma relação direta e muito bem conduzida com o espectador. 

Há momentos em que o corpo cria imagens muito bonitas com a luz criativa de Alexandre O. Gomes. As atmosferas construídas pela iluminação ampliam os estados da cena.

A construção imagética de cenário, figurino e visagismo também chama atenção. O trabalho desenvolvido por O Grupo e Alessandra Fernandes, junto à maquiagem assinada por Maria Eduarda Portugal, contribui para criar uma atmosfera simbólica e expressiva que fortalece a identidade estética da cena. A figura da bruxa aparece inicialmente vinculada ao imaginário clássico: a vassoura, os signos das histórias fantásticas, a personagem marginalizada dos contos populares. Essa escolha ativa referências imediatas e estabelece uma comunicação rápida com o espectador. 

Ao mesmo tempo, surge uma provocação: como essa jovem artista, moradora da Baixada Fluminense, pode reinventar seus próprios arquétipos de bruxa? Que outras imagens, corporalidades, espiritualidades e referências contemporâneas — ou não — poderiam atravessar essa construção? Talvez a potência do trabalho esteja justamente na possibilidade de aproximar essa bruxa de territórios mais íntimos, urbanos e brasileiros, ampliando ainda mais as camadas simbólicas e subjetivas da personagem.

Fica também a sensação de que algumas movimentações cênicas podem ser ainda mais exploradas nas transições físicas da personagem, permitindo que o trabalho corporal ganhe novos contornos e aprofunde ainda mais a expressividade da cena.  

“Nenhuma Mulher Nasce Bruxa” revela uma artista com voz própria, coragem estética e desejo de comunicação. E sua maior potência está justamente na capacidade de transformar experiência pessoal em encontro coletivo, fazendo da cena um espaço de escuta, invenção e pertencimento. 





CRÍTICA TEATRAL - ERA UMA VEZ UM OMBRO ESQUERDO QUE VIVIA DENTRO DE UM ARMÁRIO

  


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 24/05/2026

Era uma Vez um Ombro Esquerdo que Vivia Dentro de um Armário




Com guarda-chuvas, sombrinhas e cores vibrantes, Era uma Vez um Ombro Esquerdo que Vivia Dentro de um Armário constrói uma fábula contemporânea sobre liberdade, identidade e ruptura com padrões aprisionadores.

Poético, irreverente e visualmente marcante, o espetáculo aposta em excelentes atuações e em um figurino expressivo que reforça sua atmosfera alegórica. Apenas uma importante cena prejudicada pela baixa iluminação compromete parcialmente a plena fruição visual da montagem.

Ainda assim, trata-se de uma obra sensível e corajosa em sua proposta estética e temática.

Frase de efeito: A arte floresce quando tem coragem de ocupar todos os espaços da existência.








CRÍTICAS TEATRAIS - MINGAU FUTEBOL CLUBE

 


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 24/05/2026

Mingau Futebol Clube




Com narrativa dinâmica e elenco jovem, Mingau Futebol Clube conduz o público por uma trama envolvente que brinca habilmente com as expectativas da plateia. O espetáculo inicialmente sugere um caminho romântico para, ao final, surpreender com uma reviravolta bem construída.


O figurino vibrante acompanha a energia dos atores e contribui para a atmosfera leve e magnética da encenação.

Frase de efeito: O teatro permanece vivo quando consegue surpreender até o último instante.











terça-feira, 2 de junho de 2026

CRÍTICAS TEATRAIS - MEMÓRIAS TRANCADAS

 


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 24/05/2026

Memórias Trancadas




Inspirado no teatro do absurdo, Memórias Trancadas apresenta uma dupla de atores em performances consistentes diante de uma situação aparentemente simples, mas carregada de simbolismos: uma porta que insiste em não abrir.



O figurino e os elementos sonoros construídos pelas chaves contribuem significativamente para a atmosfera surrealista da montagem. Como sugestão estética, a porta cenográfica poderia receber maior intervenção visual, aproximando-se ainda mais da linguagem lúdica e absurda proposta pela cena.

Frase de efeito: O teatro do absurdo nos lembra que nem toda porta precisa levar ao óbvio.









Confira