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quinta-feira, 4 de junho de 2026

DANI CÂMARA FALA SOBRE A MOSTRA ASLUCIANAS

 

Sobre a VI MOSTRA ASLUCIANAS!


Primeiramente, agradeço o convite e a confiança. Participar da Mostra Aslucianas é se aproximar de uma trajetória viva, criada com insistência e poesia pelo Grupo Aslucianas na Zona Norte carioca, onde o teatro se afirma com relevância e resistência.

A Mostra se desenha como um território de escuta e partilha, onde diferentes vozes e corpos se encontraram para projetar a força do teatro, da pesquisa e da diversidade. Ao longo da edição acompanhamos um evento de formação de público e de artistas, reunindo centenas de criadores e espectadores em torno da experiência teatral. Muito lindo e necessário todo o movimento!

Com 20 cenas curtas, 4 espetáculos infantis, 4 curtas-metragens, além de apresentações convidadas que atravessaram teatro, dança, performance e música, a edição fez história. Foi uma programação-constelação de linguagens e 40 premiações, que se tocaram e se contaminaram, ampliando o olhar e a sensibilidade de quem assistiu e subiu no palco.

A proposta de ações formativas que atravessou toda a Mostra — especialmente nas oficinas gratuitas — trouxe ainda mais força ao processo cênico, que também contou com recursos de acessibilidade em Libras, audiodescrição, além de óculos e fones voltados à hipersensibilidade à luz e ao som. Essas estratégias expandiram o alcance de público, tornando a experiência mais inclusiva e sensível às diferentes formas de percepção.

Realizada no Teatro Armando Gonzaga, em Marechal Hermes, a Mostra Aslucianas faz acender a luz do subúrbio carioca e sua potência criativa, território de invenção e de pensamento artístico, crítico e político — um campo de permanência, encontro e resistência através da arte.

Parabéns a todo o grupo e a toda a equipe técnica que fizeram a magia acontecer. E aconteceu bonito!!! Avante!!!

 


CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 30/05/2026

 


Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 30 de Maio de 2025

 


Artigos de Luxo, um trabalho de forte coesão estética e expressiva, onde a unidade entre atuação, figurino, cenografia e dramaturgia sustenta um universo cênico consistente e pulsante. A encenação constrói uma experiência em que cada elemento parece dialogar com o outro de forma orgânica, reforçando a sensação de um projeto artístico cuidadosamente articulado, tanto no plano visual quanto no jogo dos corpos em cena.

O trabalho dos quatro intérpretes revela versatilidade e precisão nas marcações, criando uma dinâmica de cena fluída, em que as transições e relações entre os personagens são conduzidas com clareza e intensidade. Há um entendimento coletivo do jogo teatral que fortalece a presença cênica do grupo, ampliando a potência das situações dramatizadas e permitindo que a cena se desdobre em diferentes camadas de leitura.

A cenografia e o figurino, assinados por Ricardo Melchiades, dialogam diretamente com o universo proposto por Lilian Guerra, contribuindo para a construção de uma atmosfera que tensiona e comenta a própria ação dramática. Essa integração entre elementos visuais e narrativos reforça o caráter estético do espetáculo, ao mesmo tempo em que potencializa seus atravessamentos sociais.

Sob a direção coletiva de Daniel Roberto, Isabela Souza, Raiane Souza e Ricardo Melchiades, com supervisão de Eduardo Vaccari, o trabalho se estrutura como um campo de investigação cênica que articula diferentes olhares e trajetórias artísticas, especialmente a partir de jovens artistas da Zona Oeste e da Baixada Fluminense. Essa diversidade de origens e experiências se reflete na cena, trazendo densidade e enraizamento em realidades sociais específicas. Seguir lapidando as construções subjetivas de cada artista criador pode dar ainda mais sentido às cenas e pode ajudar a construir ainda mais sentido nas relações apresentadas.

“Artigos de Luxo” é uma reflexão sobre as fissuras sociais que atravessam o cotidiano, especialmente em contextos periféricos e de vulnerabilidade. A dramaturgia se organiza de forma a partir de imagens que criam imagens poéticas capazes de abrir espaço para leituras críticas e diretas das relações sociais. É um trabalho que se destaca pela organização cênica, pela beleza de suas composições e pela força de seu coletivo criativo, revelando um potencial significativo de amadurecimento e continuidade dentro de sua pesquisa artística.

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“O Auto de Santa Isabel", é uma cena instigante que articula de forma inteligente o jogo cênico dos atores, a comicidade presente no texto de Rasec Rodrigues e uma direção bem estruturada, assinada pelo próprio criador em parceria com Gabriel Angel. A encenação se dá a partir de um universo cômico altamente expressivo, no qual os intérpretes exploram com precisão os desenhos de luz — por meio do uso de lanternas — e as possibilidades corporais para dar forma a uma narrativa atravessada pelo humor, sem abrir mão de uma reflexão crítica.

 

Partindo de um tema delicado — as relações entre lideranças religiosas, políticas e seus impactos na formação cultural e social — o espetáculo elabora uma crítica mediada por uma linguagem cênica que integra dança, música e marcações de coro. Esses elementos estruturam uma estética burlesca cuidadosamente construída, na qual a expressividade física dos personagens desempenham papel central na condução dramatúrgica.

O elenco formado por Carolina Silva, Nath Pires, Gabriel Angel, Diogo Luiz e Rasec Rodrigues — que também assina cenografia, figurino e trilha sonora — estabelece uma dinâmica potente em cena, sustentada por um diálogo preciso com a iluminação de Francisco Hashiguchi e pela maquiagem marcante concebida pelo coletivo. Juntos, esses elementos constroem um universo cênico em que comicidade, denúncia e teatralidade se entrelaçam de modo orgânico.

O resultado é uma obra que provoca o espectador a revisitar criticamente comportamentos, discursos e estruturas sociais, a partir de uma experiência estética viva e inventiva. O coletivo CAGE de São Gonçalo é criativo, tem muita e maturidade cênica, entregando um trabalho que deixa no público o desejo de assistir mais vezes e seguir acompanhando a pesquisa e trajetória do grupo, parabéns a toda equipe!!!



“Facada”, o espetáculo se estrutura a partir da autoficção como dispositivo dramatúrgico, utilizando-a para tensionar e desconstruir a própria cena. A partir da paródia de um acontecimento real, os quatro artistas em cena constroem uma narrativa fragmentada, que se abre em múltiplos parênteses cênicos, explorando formas e caricaturas na fabulação da história.

A encenação aposta em recursos expressivos como a mímica, a fisicalidade exagerada e a exploração sonora integrada às ações dos atores e até mesmo à relação com o público, instaurando uma dinâmica de jogo que rompe com a linearidade narrativa e convoca o espectador a participar desse universo em constante reinvenção.

Em cena, Luciano Fierro, Mau Moreira, Michelle Malc e Rodrigo Horta demonstram forte entrosamento e liberdade criativa, sustentando um jogo cênico vibrante, marcado pelo humor e pela irreverência. Destaca-se, nesse processo, o trabalho de Mau Moreira, que além de atuar, também assina a dramaturgia, articulando com precisão uma escrita cênica que potencializa o caráter cômico e a estrutura fragmentada da obra.

Outro elemento relevante é a camada sonora, cuidadosamente elaborada por Fernando Moreira, que amplia as atmosferas da cena e cria densidades rítmicas na encanação. A iluminação de Júlia Orlando também se destaca, ao instaurar recortes visuais que reforçam o tom estilizado e bufonesco do espetáculo.

O coletivo se sobressai pela consistência de sua pesquisa cênica e pela forma como articula atuação, dramaturgia e elementos técnicos em uma obra coesa e bem estruturada. A proposta de criação é destaque da crítica e evidencia um processo maduro de investigação artística, capaz de transformar o riso em dispositivo crítico e poético. Que o trabalho do grupo siga projetando a pesquisa marcante do grupo nos palcos alcançando mais e mais público pelo Brasil afora!


É Menino? A proposta de encenação com três atores chama atenção pela harmonia construída entre imagem, corpo, figurino e a utilização precisa dos acessórios cênicos. Há uma clareza e uma limpeza no desenho do espaço, estruturado a partir de cadeiras, muito bem articuladas pela cenografia de Lucas Rezende e pela iluminação de Caio César, compondo um ambiente cênico preciso e funcional. Soma-se a isso uma composição coreográfica sustentada pela repetição de gestos, que se desdobra como princípio dramatúrgico.

Ao tensionar discursos sobre masculinidade, a peça adentra um campo urgente e contemporâneo, problematizando construções sociais que naturalizam comportamentos e afetos ligados ao gênero. Nesse sentido, a encenação propõe uma reflexão sobre a possibilidade de desconstrução da masculinidade tóxica e sobre o abandono de padrões normativos que regulam o corpo, o desejo e a expressão afetiva.

A criação coletiva da Cia Expressarte é consistente tanto na direção quanto na escrita cênica compartilhada, evidenciando um processo de construção horizontal que se reflete diretamente na cena. Os intérpretes Nilton Maia, Lucas Rezende e Mário César sustentam com precisão esse pacto cênico, estabelecendo uma unidade que fortalece a dramaturgia e amplia sua densidade poética e política.

O resultado é uma cena que articula forma e conteúdo com equilíbrio, produzindo um trabalho de forte presença estética e de evidente engajamento crítico, sem abrir mão da delicadeza na composição das imagens e na condução do jogo teatral. É um lindo e tocante trabalho!!!



CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 29/05/2026

 



Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 29 de Maio de 2025

 


Antígona, propõe uma releitura contemporânea da tragédia clássica atravessada por uma experiência profundamente brasileira, marcada sobretudo pela vivência negra e periférica. Mais do que atualizar o mito, a encenação o reinscreve como ferramenta política no presente, onde Renata Tavares e Thiago Ribeiro acertam ao construir uma Antígona que reivindica justiça a partir de referências concretas do cotidiano das favelas, estabelecendo um diálogo direto com o movimento de Justiça guiado por mães de vítimas dos assassinatos em favela. E a partir de uma encenação estruturada por escolhas precisas e concisas entre as cenas, fortalece a leitura simbólica e a força dramatúrgica do espetáculo.

O figurino e a maquiagem de Nega Lu incorporam elementos como Kenner, boné e camisa de time, deslocando a tragédia grega para um universo urbano sem perder sua dimensão ritual. A presença da quartinha e da espada de São Jorge, amplia as camadas de significação da cena, ativando no espaço cênico uma relação viva entre ancestralidade, resistência e memória.

A interpretação de Nega Lu como Antígona sustenta a urgência da personagem, articulando força e astúcia cênica em uma presença que ultrapassa a condição de símbolo e se afirma como corpo atravessado por história e território, intensificando a busca da encenação por justiça e potência política. Em contraponto, a atuação de Bruno Martins amplia as tensões do jogo cênico ao instaurar uma presença que dialoga com os conflitos da cena, tensionando os limites entre rigidez e escuta dramatúrgica.

No campo da visualidade, a cenografia de Rafael Rogues, em diálogo com a concepção de iluminação de Lucas da Silva, organiza o espaço a partir de um círculo central que funciona como dispositivo cênico e núcleo de relações em constante atrito. Essa disposição espacial fortalece o vínculo entre intérpretes e elementos da cena, instaurando um ambiente de permanente tensão e circulação de sentidos.

Ainda que a obra revele um cuidado consistente na construção de seus signos, há momentos em que tais elementos poderiam ser mais explorados na ação dos atores. Da mesma forma, alguns diálogos entre Antígona e Creonte poderiam ganhar maior concisão, ampliando sua força dramática e aproximando ainda mais o clássico de sua leitura contemporânea e do público.

Antígona traz uma proposta cênica relevante na cena contemporanea, que desloca uma das tragédias fundadoras do teatro ocidental para um território negro e brasileiro. A encenação desperta o desejo de assistir e revisitar a cena, pela força das imagens, pela potência política do discurso e pela maneira como trabalha o mito no presente, mantendo-o vivo, inquieto e atual. É uma cena que emociona e vale e merece seguir circulando pelos palcos brasileiros. Vida longa!

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“Torra Média”, se inscreve no campo das poéticas contemporâneas do corpo, onde a cena se organiza como um espaço de fricção entre gesto, ritmo e sonoridade. A encenação é sensível, junto do texto e da trilha sonora, também concebidos por Vinícius S., que operam como princípio da ação, criando tensões contínuas com os corpos em cena e convocando o espectador a uma experiência de escuta visual e corporal.

A dramaturgia se desdobra sem linearidade textual, mas com forte investimento na arquitetura de ações. O gesto, explorado até o limiar da exaustão, emerge, aproximando a encenação de matrizes pós-dramáticas em que a repetição se configura, atribuindo ainda mais sentido à cena. Nesse campo, a presença de ecos da dança-teatro de Pina Bausch pode ser percebida não só pela citação direta, mas como filiação estética: um modo de organizar o corpo em estado de vulnerabilidade e estranhamento.

A cenografia e o figurino de Ricardo Melchíades participam ativamente dessa tessitura, não apenas como ambientação, mas como corpos expandidos da própria dramaturgia, compondo uma visualidade que vibra em consonância com a trilha sonora e com as modulações luminosas de Rafa Domi. A iluminação, nesse contexto, opera como escritura do espaço, desenhando zonas de presença e suspensão certeiras.

No campo performativo, destacam-se Rayane Souza, no papel de Ana, e Ricardo Melchíades, protagonistas da obra, cuja atuação se ancora em uma ética da presença física e leveza. Seus corpos se lançam em uma partitura de ações que articula repetição e precisão, construindo uma corporalidade que parece tensionar os próprios limites. Há, nesse sentido, uma escrita do corpo que se aproxima de uma poética da exaustão como método de composição.

A experiência cênica  é forte e sensível, e produz mundos por meio da articulação entre som, corpo e luz. Trata-se de uma obra que convoca o espectador a um regime de atenção expandida, no qual a percepção é deslocada do habitual para um campo de possibilidades produtivas.

Entretanto, essa mesma radicalidade abre uma questão crítica pertinente: em que medida tal densidade poética encontra ressonância em públicos mais amplos, especialmente em contextos de formação de plateia fora dos circuitos hegemônicos? A potência estética do trabalho reside justamente nessa tensão entre experimentação, comunicação e abertura de sentidos. É nesse intervalo que a cena  se afirma como obra viva — como pergunta em movimento.

A encenação tem uma proposição estética consistente, que investe na materialidade do corpo e na musicalidade da cena como modos de pensamento, reafirmando o teatro como espaço de experimentação sensível e de reinvenção do olhar. Parabéns a toda equipe!

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“A mala de Rubens” da Trupe Silvas de Teatro, é uma encenação forte e com densidade sensorial, na qual corpo, voz e imagem se articulam para construir uma experiência que ultrapassa a narrativa linear e se instala no campo do acontecimento. É um trabalho que aposta na intensidade física, emocional e social como eixos estruturantes de sua poética, produzindo uma cena que vibra entre o sensível e o simbólico, entre a materialidade do gesto e a elaboração estética da memória.

A encenação, assinada por Madu Emmerick — que também assume a dramaturgia —, revela um olhar atento para a construção de um teatro de coro, no qual a potência do coletivo não se dissolve em unidades individuais, mas se expande na relação entre os corpos. O grupo em cena demonstra notável disponibilidade física e vocal, operando com precisão em um campo híbrido de linguagens: canto, execução musical ao vivo, dança e atuação. Essa escolha estética reforça a ideia de uma cena expandida, em que a teatralidade se constrói pela sobreposição de camadas expressivas.

O elenco composto por João Vitor Ferraz, Mauro Freia, Beatriz Genuncio, Jhessy S., Amanda Lívia, Rapha Jobim e Francisca Pereira sustenta a cena com vigor e escuta coletiva. Há uma coesão evidente no modo como o elenco ocupa o espaço com jogo, com a composição em grupo e a circulação de energia entre os corpos. As performances  criam uma paisagem cênica compartilhada, na qual cada gesto reverbera no conjunto. É muito bonito assistir!

No plano visual e material, a cenografia de Rapha Jobim e o figurino Amanda Lívia os dois desenvolvido em parceria com Madu contribuem para a exploração de um universo imagético em diálogo direto com a dramaturgia corporal do espetáculo. A maquiagem, criada pelo próprio coletivo, reforça o sensível da montagem, enquanto a trilha sonora de Juliane Andrade e a iluminação de Rafa Domi instauram uma atmosfera que oscila entre o lúdico e o inquietante, ampliando a percepção do espectador e tensionando os sentidos da cena.

Destaca-se ainda a inserção, ao final da encenação, de uma atriz mais experiente, cuja presença introduz uma camada geracional significativa ao espetáculo. Esse gesto amplia o horizonte poético da obra ao tensionar diferentes temporalidades em cena, sugerindo uma reflexão sobre memória, continuidade e transmissão. Trata-se de uma aparição que desloca a percepção do público e adiciona espessura simbólica ao percurso dramatúrgico.

A força do trabalho é a consistência da pesquisa da Trupe Silvas de Teatro, de São Gonçalo, que vem consolidando uma identidade artística própria na cena contemporânea. O grupo demonstra maturidade na articulação entre diferentes linguagens e uma marcante teatralidade que nasce do corpo em ação, da coletividade e da invenção contínua.

Em A mala de Rubens, o que se vê é construção de um território poético em permanente deslocamento, onde o teatro se afirma como experiência compartilhada, sensível e viva. Um belo, intenso, pulsante, marcante e potente projeto em estado de presença.

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“O Último Ato” traz uma direção que acerta ao afirmar a potência do artista como gesto de manifesto poético-político, articulando essa dimensão a uma crítica à ditadura militar. A partir do jogo estabelecido entre os atores, uma cena de forte apelo estético, cuidadosamente composta e visualmente envolvente é construída.

Um dos pontos altos do espetáculo é a maquiagem de Larine Savinon, que adorna, caracteriza e estrutura visualmente os corpos em cena. Em diálogo com o figurino e com a parceria de Denair, amplia um universo de possibilidades expressivas, no qual cada camada visual parece operar como extensão dramatúrgica. A atuação, texto e direção partem da própria artista, o que confere à obra uma unidade autoral evidente e marcante.

Destaca-se ainda a atuação de Daniel Mota, que contribui expressivamente na construção do campo sensível da cena. Em articulação com a iluminação criativa de Duda Fulco, o espetáculo ganha espessura poética, expandindo suas atmosferas e reforçando a dimensão lírica que o atravessa.

Se por um lado a encenação apresenta uma visualidade potente e bem resolvida, por outro, a cenografia, muito bela, parece pedir maior depuração em diálogo com a encenação. Um desenho mais enxuto poderia preservar apenas o essencial para sustentar a atmosfera lírica da proposta, potencializando sua força. O texto também se beneficiaria de um refinamento, especialmente no que diz respeito a evidenciar a comicidade que atravessa essa tragédia contemporânea. Há um campo fértil entre humor e denúncia que pode ser mais explorado, ampliando a construção dos personagens e aprofundando o universo em que estão inseridos.

A trilha sonora de Cadu Werly e Wallace Luz sustenta com sensibilidade o território lúdico da cena, funcionando como um eixo importante da composição. Um ajuste nos volumes pode fortalecer ainda mais a linguagem dramática, artística e política da obra, que já se afirma com magia e encanto nos palcos! Continuem pesquisando e brilhando em cena!!!

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CRITICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 24/05

 



Crítica por Dani Câmara 


Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 24 de Maio de 2025

 


As Coisas Que Não Disse a Você convida o público a voltar para a infância por meio da imaginação, das lembranças e do brincar. Em cena, um coro coeso formado por Del Barreto, Laura Daniele, Lisa Lian, Maíra Kirozowski e Nicolas Rodrigues constrói um universo delicado, evocando memórias da escola, das brincadeiras coletivas, das cantigas e dos afetos que atravessam essa fase da vida.

A maquiagem minimalista, as escolhas cromáticas do figurino e as imagens construídas em cena revelam a força do processo de criação coletiva que atravessa o espetáculo. Esses elementos compõem uma unidade visual capaz de abrir portais para o território da memória, contribuindo para a construção de uma atmosfera sensível e poética. São escolhas precisas que fortalecem a identidade estética da obra e evidenciam a sintonia do grupo na elaboração de sua linguagem cênica.

As imagens construídas a partir das brincadeiras de corda e do cabo de guerra trazem beleza e força. Em diálogo com a iluminação, com os áudios produzidos durante a pesquisa e com a sensível trilha sonora de Déo Barreto e Lizza Lian, a encenação cria uma atmosfera lírica que desperta memórias e afetos. Corpo, som e imagem articulam-se de forma orgânica, transformando a cena em um espaço de partilha.

Em futuras investigações, talvez o trabalho possa recorrer ainda mais à dramaturgia em torno das memórias guardadas. Esses fragmentos que aos poucos emergem e reverberam entre os personagens poderiam ganhar contornos mais definidos em diálogo com a encenação, ampliando o impacto emocional e os percursos dramatúrgicos propostos. Da mesma forma, a relação entre texto, corpo, espaço e a expressiva e marcante cenografia de Laura Daniele Borges apresenta possibilidades de expansão, ampliando a presença dessas lembranças no espaço cênico.

Delicado e repleto de imagens marcantes, o espetáculo encontra na infância uma forma de refletir sobre afeto e imaginação. É uma obra de grande sensibilidade poética, que já demonstra consistência em sua proposta e revela ainda mais potencial para alcançar camadas profundas em seu desenvolvimento. Avante! Que a pesquisa siga ampliando e se fortalecendo no fazer e no encontro com o espectador! Vocês nos emocionam!

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Memórias Trancadas aposta na linguagem do teatro do absurdo para construir uma cena instigante e repleta de imagens. Em cena, dois atores e uma porta são suficientes para criar um universo que desafia a lógica cotidiana e convida o público a mergulhar em uma atmosfera marcada pela imaginação e pelo estranhamento.

Logo nos primeiros momentos, chama atenção a composição física dos intérpretes e a maneira como seus corpos ocupam o espaço. Jéssica Alves, no papel de Anne, e Mauro Faria, interpretando Bruno, demonstram domínio do jogo cênico proposto, transitando com precisão entre atuação, narração e construção de imagens corporais. Há uma escuta mútua constante que sustenta a dinâmica da encenação e mantém o interesse da plateia ao longo da apresentação.

A direção de Bruna Ponciano é marcada pelos desenhos cênicos construídos no espaço em diálogo com a cenografia e a dramaturgia também assinados por ela, elementos centrais da encenação. Mais do que um objeto de cena, a porta organiza o espaço, cria tensões e abre múltiplas possibilidades de leitura da obra. A partir dos deslocamentos, das aproximações e da exploração dos gestos dos atores, a direção compõe uma dramaturgia que cria um universo simbólico e amplia a potência das imagens apresentadas.

Outro ponto de destaque é o figurino: os pesos, as texturas e os sons produzidos pelas chaves incorporadas ao traje funcionam como uma espécie de sonoplastia viva, preenchendo o espaço e acrescentando novas camadas ao jogo teatral. Essa relação entre corpo, vestimenta e sonoridade encontra ressonância na trilha sonora organizada por Juliana Lacerda, que acompanha as ações do elenco e contribui para a construção da atmosfera proposta.

A iluminação de Juliana Amorim e a maquiagem de Milla Villela também merecem reconhecimento pela forma como criam recortes que ampliam a dimensão poética da montagem e reforçam a força visual das imagens apresentadas.

Como sugestão para novas apresentações, a pesquisa pode aprofundar ainda mais as possibilidades simbólicas da porta. Sendo um objeto tão carregado de significados, o que aconteceria se suas aberturas fossem mais raras? Como essa escolha poderia alterar a expectativa do público e intensificar o jogo já estabelecido em cena? Um texto mais curto talvez possa proporcionar uma intensificação do conjunto já harmônico do espetáculo.

São caminhos férteis de pesquisa em um trabalho que possui grande consistência estética e inventividade. Parabéns a toda a equipe criativa pela pesquisa e pelo trabalho corajoso.

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Era Uma Vez um Ombro Esquerdo que Vivia Dentro do Armário é belo, divertido e político. Desde os primeiros momentos, as cores vibrantes criam múltiplos arco-íris LGBTQIA+ em cena, transformando o espaço em um território de afirmação e resistência.

A obra parte de corpos que decidem se mostrar ao mundo, enfrentando os pesos das normas sociais que buscam enquadrá-los. A partir dessa temática, a encenação constrói situações envolventes e divertidas. Aline Alli, responsável pela dramaturgia, direção e iluminação, articula com leveza o conjunto visual e poético que sustenta a fábula e fortalece a identidade estética do espetáculo. As composições criadas no palco possuem força suficiente para conduzir a narrativa, o que me faz questionar a necessidade de algumas ações na plateia para além dos momentos de interação direta com o público.

E, ao falar dessa interação, está aí um dos maiores acertos do trabalho: o coro. A partir das alegorias que compõem a encenação, o grupo cria momentos de forte presença e cumplicidade com o público, brincando com os corpos, os ritmos e as imagens da cena. O elenco, formado por Ayana Dias, Fab Ribeiro, Ju Sabioni, Letícia Ambrósio, Lu Alves, Rangel Andrade e Verenna Ribeiro, ocupa o espaço com humor e irreverência, fazendo do movimento coletivo um dos pilares do espetáculo.

A cenografia e os adereços de Ayana Dias, Halyson Félix e Verenna Ribeiro apresentam soluções inventivas, como a boca que funciona como caixa de som, elemento plenamente integrado à estética do espetáculo. Os guarda-chuvas e leques multicoloridos ampliam o imaginário visual da cena, enquanto o figurino da Mal Amados Coletiva de Teatro reafirma o poder das cores na construção de narrativas e afetos.

Pergunto-me como os guarda-chuvas poderiam assumir uma função ainda mais ativa na composição do coro que já funciona muito, ampliando a criação de desenhos cênicos e imagens coletivas de maior complexidade. Da mesma forma, um refinamento na relação entre a dramaturgia textual e a dramaturgia do corpo pode fortalecer ainda mais a coesão da encenação.

A trilha sonora de Lu Alves já conduz a cena com sensibilidade e precisão, e pode ocupar um lugar ainda mais decisivo na construção dramatúrgica do espetáculo que é lindo.

Que a obra siga abrindo espaços de diálogo a partir de sua temática necessária, produzindo encontros e fortalecendo a visibilidade de corpos, histórias e existências que ocupam o mundo com liberdade, cor e imaginação.

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Mingau Futebol Clube é uma cena que envolve pela unidade construída entre dramaturgia, direção e a orientação de Eduardo Vaccari. A partir do texto de Lilian Guerra, que lança um olhar sensível e profundo sobre a periferia e seus corpos insurgentes, a montagem desenvolve uma narrativa capaz de gerar identificação imediata com o público. Essa proximidade é fortalecida pelo trabalho dos atores Matheus Teles, Luane Flores, Tito Cordeiro e Edgar Bernardo, artistas disponíveis e curiosos em cena, que conduzem as ações com teatralidade e energia.

A composição visual chama a atenção de nós espectadores. O figurino, assinado por Ricardo Melchiades, e a cenografia de Bruno Silvestre dialogam de forma harmoniosa, criando uma identidade estética marcante. Merecem atenção especial o gol e a rede posicionados no centro da cena, elementos que evocam memórias ligadas aos territórios periféricos e à paixão pelo futebol que atravessa a cultura brasileira. Mais do que simples objetos cenográficos, esses recursos funcionam como dispositivos de afeto e reconhecimento, aproximando a plateia das experiências apresentadas e ampliando a dimensão simbólica da obra.

Como público fica a sensação de que a cena pode investir ainda mais no processo de adaptação dramatúrgica. Em determinados momentos, a relação entre Leleco e Pinguinho perde parte de sua complexidade. Embora a amizade entre os personagens esteja claramente delineada, permanece no espectador o desejo de acessar com maior profundidade os afetos, conflitos e vínculos que os conectam e os desconectam. Explorar essas camadas pode acentuar o caráter de denúncia presente na obra quanto a conexão emocional do público com a trajetória dos personagens.

Outro aspecto relevante é a relação estabelecida entre os artistas e o público. A maneira como conduzem as situações cênicas e mobilizam a participação da plateia revela segurança e domínio da narrativa que só tendem a ganhar se seguirem sendo explorados no trabalho. Trata-se de uma cena adaptável, capaz de capturar a atenção por meio da força de seu coletivo e da expressividade de suas imagens, muito bem criadas pela iluminação de Manuela Scart e pela operação de luz de Bruno Silvestre. Uma aposta que traz sensibilidade narrativa, costurada muito bem pela trilha sonora de Matheus Teles.

Necessária a forma como o espetáculo se propõe a evidenciar histórias e vivências de meninos negros periféricos, contribuindo para o fortalecimento de narrativas que precisam ocupar cada vez mais espaço nos palcos. Que a pesquisa siga circulando e ampliando suas possibilidades de criação esse encontro necessário com o público!


CRITICAS TEATRAIS - POR DANI CÂMARA - 23/05/2026



Crítica por Dani Câmara 


Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 23 de maio de 2026

 


Pêndulo Suburbano” é uma cena de grande potência política e poética ao transformar a experiência autobiográfica de seu intérprete em matéria teatral. O que primeiro chama atenção é a presença cênica de Eduardo, que domina o espaço por meio da voz, do corpo e da precisão dos gestos. Sua voz alcança todo o teatro, sustentando uma narrativa que combina comicidade, denúncia e afeto, em um constante movimento de anunciação.

Há uma inteligência cênica notável na forma como o ator utiliza seu próprio repertório corporal para construir a dramaturgia e os momentos sonoros. O domínio da voz, dos gestos e das ações escolhidas para a cena evidencia a pesquisa do ator sobre si mesmo e sobre o mundo que o cerca. A encenação de Ygor Fortino e Luis Fernando Rocha, junto à iluminação de Nana Pereira, aposta em uma cena bem desenhada, permitindo que o corpo e a palavra assumam centralidade. O figurino de Ster Tonini — um macacão que remete ao universo operário, acompanhado da mochila — reforça a identidade do espetáculo e dialoga diretamente com a figura do trabalhador e do estudante que circulam pela cidade.

A autobiografia surge como um elemento potente, não apenas por revelar experiências pessoais, mas por transformá-las em linguagem artística capaz de gerar identificação e reflexão. O resultado é um trabalho que estabelece forte diálogo com o território onde é apresentado. Em uma mostra realizada em Marechal Hermes, por exemplo, a narrativa encontra ressonância imediata junto ao público que compartilha, em diferentes níveis, experiências semelhantes de deslocamento, trabalho e luta cotidiana.

Ao mesmo tempo em que denuncia estruturas de desigualdade, “Pêndulo Suburbano” preserva um lirismo delicado. O projeto constrói um corpo insurgente que fala de resistência sem abrir mão da esperança. Há uma dimensão sensível que atravessa toda a montagem, permitindo que o espetáculo dialogue tanto com questões urgentes da realidade brasileira quanto com aspectos profundamente humanos da experiência de existir e sonhar.

Como possibilidade de aprofundamento, o trabalho pode seguir investigando a construção gestual ligada aos percursos realizados pelo personagem ao longo da cidade, assumindo um texto mais curto. O que pode ser dito pelos gestos sem o texto? Como a encenação já opera com gestos bastante precisos e simbólicos, um refinamento ainda maior desses movimentos, junto à dramaturgia — especialmente nos momentos que evocam os deslocamentos de trem e os trajetos cotidianos — pode potencializar a experiência do espectador. Não se trata apenas de aprimorar uma técnica, mas de fortalecer a relação entre gesto, memória e emoção, ampliando a capacidade da cena de conduzir o público para dentro da experiência vivida.

“Pêndulo Suburbano” é um trabalho especial e toca direto o coração de quem assiste. Reafirma a potência do teatro como espaço de escuta, reflexão e transformação, dando voz a narrativas que historicamente atravessam a cidade, mas que nem sempre encontram lugar de fala na vida e nos palcos. Parabéns a toda a equipe!

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“Respira” - COMO É LINDO O CORPO NEGRO EM CENA - É um trabalho de rara beleza, um coletivo em sua maioria negro, construído com brilho, sutileza e sensibilidade. Desde os primeiros instantes, a obra revela uma pesquisa cênica consistente e profundamente autoral. A cena inicial, produz um impacto imediato. Há algo fascinante na maneira como os intérpretes se comunicam sem recorrer à palavra falada, explorando gestos, respirações e presenças que transformam o corpo em linguagem.

Trata-se de uma obra que constrói sua narrativa a partir da dramaturgia do corpo, situada entre o teatro e a dança, em uma investigação sensível da presença e do movimento.

A unidade entre os intérpretes - elenco, coro formado por Sol Sussuarana, Felipe Izidoro, Victor Lucas, Luana Hyuuga, Alleker Soares, José Reis, Maias demonstra grande precisão técnica e expressiva, entregando performances marcadas pela presença. É um dos grandes destaques da montagem. Existe uma escuta coletiva muito forte, que sustenta a cena e fortalece a expressividade do conjunto.

Nesse diálogo entre teatro e dança, o espetáculo nos convida a perceber o corpo como território de poder, capaz de produzir ruídos, sons, imagens e significados sem depender exclusivamente da palavra. É um trabalho que merece continuar circulando e alcançando novos públicos.

A direção de José Reis, acerta na forma como organiza a encenação, construindo uma composição equilibrada. A Cenografia de Thiago Pinheiro e figurino de José Reis e Caio Cone dialogam de maneira harmoniosa com a proposta estética da obra, enquanto a trilha sonora de Júlia Storino, José Arthur Fernandes e Bruno Rangel e iluminação de Wellington Fox ampliam as camadas de sentido da encenação.

Também merece destaque a direção de movimento de Kay Lima, que desenha a cena com forte teatralidade sem abrir mão da dança nem da singularidade de cada artista. Os deslocamentos, as imagens corporais e a composição coletiva revelam uma pesquisa cuidadosa com o universo proposto.

Como provocação para futuras investigações, a obra talvez possa aprofundar ainda mais a pesquisa de maquiagem, ampliando as relações visuais com o universo simbólico construído em cena e fortalecendo algumas das imagens que já se mostram bastante potentes. Da mesma forma, sobre a investigação dos limites entre o som e o silêncio - ao longo do espetáculo os artistas trabalham o quase falar, produzindo vocalidades  que criam atmosferas de intensidade. Como esses recursos poderiam ser explorados a partir de um silêncio ainda mais radical? Como construir suspense, tensão e dramaticidade sem recorrer a qualquer emissão vocal?

Por fim, a proposta de encenação menciona a inclusão da linguagem de sinais (LIBRAS),  na cena. No entanto, esse elemento não se torna perceptível durante a experiência. Fica a curiosidade sobre como essa camada de pesquisa poderia ser inserida e consolidada ou deixada de lado para explorar outras nuances que já existem na cena.

São reflexões que nascem justamente da riqueza das possibilidades que o trabalho apresenta e que revelam um campo fértil para novas experimentações.

Respira é um trabalho que conduz o público por um percurso que transita da beleza ao drama, finalizando em uma espécie de desterro que deixa os espectadores imersos em um universo de silenciamento, convocando uma suspensão final necessária e muito marcante.

É um espetáculo sensível, necessário e impactante. Um trabalho que demonstra o talento de toda a equipe envolvida e reafirma a potência do corpo como espaço de criação, resistência e encontro. Sou grata por ter assistido a uma obra tão bela e significativa.

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Mirins constrói uma experiência cênica singular ao abordar a vida dos Exus Mirins a partir da figura de duas crianças que brincam nas encruzilhadas. São bonitas e muito bem conduzidas as escolhas de direção e dramaturgia de Igor Mattos, que faz a brincadeira encontrar o ritual e abre espaço para que a imaginação conduza histórias e memórias tantas silenciadas, nas interpretações marcantes de Terra Santos e Vania Silva.

Desde o início, chamam atenção o figurino de Rosa dos Anjos, os desenhos de luz de Juliana Amorim, a maquiagem de Getúlio Nascimento e os elementos cênicos que compõem um conjunto harmonioso na encenação. As garrafas, o alguidar e a ocupação da boca de cena desenham um território próprio, um espaço que nos convida a atravessar a encruzilhada junto com essas figuras e seus universos periféricos.

A presença da instrumentista Nathália Vilela é outra grande potência da cena. Conduzindo a narrativa com o atabaque, ela sustenta o ritmo e a pulsação do espetáculo. Em tradições de matriz africana, o tambor é memória, comunicação e vida; é coração que pulsa. Ver uma mulher ocupando esse lugar de diálogo ancestral amplia a experiência sensorial e também a dimensão política da obra. Sua presença não apenas acompanha a ação, mas fortalece a atmosfera ritual que atravessa toda a encenação.

Também chama atenção a delicadeza com que o espetáculo aborda questões sensíveis, urgentes e temas complexos atravessados pela escuta, pela imaginação e cuidado.

Como continuidade dessa pesquisa, a dramaturgia e a direção podem aprofundar as narrativas ligadas às entidades que habitam a cena e mergulhar nas relações entre Teatro Neo-Absurdo e Teatro Documental, ampliando a presença e a força dessas histórias no palco. Da mesma maneira, um olhar mais atento para a cosmologia de Exu tende a enriquecer o jogo das intérpretes e a dimensão ritual da obra, potencializando o uso de elementos como o alguidar, e o sagrado que abriga as oferendas, assim como as garrafas presentes ao longo da encenação. Estas, na cultura vodun Jeje, não se limitam à função de recipientes, mas carregam uma dimensão sagrada de ser o próprio assentamento onde a divindade ou o espírito habita. Como manusear de forma precisa o sagrado? Nesse percurso, a pesquisa dialoga com reflexões de Leda Maria Martins sobre ‘oralitura’, ‘corpo-tela’ e ‘tempo espiralar’, além de estabelecer aproximações com o Teatro Preto de Candomblé desenvolvido por Onisajé e com experiências contemporâneas como Menina Mojubá, espetáculo que se tornou uma importante referência da cena carioca na pesquisa sobre Teatro de Terreiro. São referências capazes de expandir uma investigação que já demonstra identidade, sensibilidade e potência próprias.

Mirins cria imagens marcantes e encontra bonitos caminhos para falar de memória, espiritualidade e resistência. É um trabalho que pulsa com força e deixa no público o desejo de acompanhar os próximos passos desse trabalho necessário.

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Ratos e Urubus é uma cena arrebatadora que impacta pela escolha de sua temática: a potência dos corpos negros que constroem e sustentam o carnaval. Ao abordar comunidade, resistência e a maior festa popular brasileira, o espetáculo lança um olhar crítico sobre suas transformações, problematizando a relação entre apropriação cultural e o protagonismo daqueles que fazem da festa um espaço de criação, memória e pertencimento.

Na direção, dramaturgia e atuação, Ramon Cazuza toma como referência o emblemático enredo Ratos e Urubus, Larguem Minha Fantasia, apresentado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1989 sob criação de Joãosinho Trinta. Ao recuperar esse marco da história do carnaval brasileiro, a montagem reforça a dimensão política da avenida como espaço de denúncia e disputa de narrativas.

Essa perspectiva se amplia com a presença de uma mulher à frente da bateria, gesto que desloca estruturas historicamente patriarcais. As passistas e a porta-bandeira evocam resistência, ancestralidade e axé, sustentando a força simbólica da cena e afirmando a realeza negra presente no universo do samba.

Ao lado de Ramon, Larissa Magalhães, Lorrayne Kaye, Bebel Ribas e Brenda Gabrielle demonstram vigor, inteligência cênica, harmonia e forte senso de coletividade, qualidades visíveis na forma como o grupo executa as coreografias com precisão e traduz em movimento as camadas simbólicas da obra, criando imagens de grande impacto.

A trilha sonora, assinada por Rafael Silvestre, Allan Arcânjo e Ramon Cazuza, intensifica a experiência do público ao dialogar com o figurino e a cenografia de Sérgio Ribas e Ivone Oliveira. Juntos, esses elementos recriam o imaginário da Sapucaí e mantêm pulsando o coração do samba, transformando o palco em um território de celebração e resistência.

A montagem denuncia e anuncia; questiona e celebra, tudo ao mesmo tempo! O resultado é uma cena potente e emocionante, que faz o coração do espectador gingar junto ao samba e que reafirma o carnaval como espaço de luta, pertencimento e construção de futuros.

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

6ª MOSTRA ASLUCIANAS REUNE TEATRO, MUSICA, DANÇA E MUITOS ARTISTAS NO SUBURBIO DO RIO

 


6ª MOSTRA ASLUCIANAS ENCERRA EDIÇÃO COM CERCA DE 250 ARTISTAS, 1.200 ESPECTADORES E 39 PREMIAÇÕES DISTRIBUÍDAS

A 6ª Mostra Aslucianas encerrou sua programação consolidando-se como um dos mais importantes espaços de valorização da produção artística independente da Zona Norte do Rio de Janeiro. Realizado ao longo de 15 dias, o festival reuniu cerca de 250 artistas e recebeu aproximadamente 1.200 espectadores em atividades realizadas no Teatro Armando Gonzaga e no Parque Madureira.

Fotografia Aline Baptista

Com uma programação diversificada e acessível, a Mostra promoveu apresentações de cenas curtas, espetáculos infantis, números musicais, exibição de curtas-metragens, ações formativas e atividades de integração entre artistas e público. O projeto teve como principal objetivo incentivar a criação artística fluminense, fortalecer o trabalho continuado dos grupos independentes e ampliar o acesso à arte e à cultura em territórios periféricos do subúrbio carioca.

Além das apresentações, o festival ofereceu gratuitamente oficinas de Produção Cultural, Corpo em Movimento e Canto Coral, realizadas no Parque Madureira. As atividades formativas reuniram artistas e estudantes, ampliando o alcance do projeto para além da fruição artística.

Oficina no Parque Madureira

Um dos destaques da 6ª Mostra Aslucianas foi seu compromisso com a acessibilidade e a democratização do acesso à cultura. O festival ofereceu recursos de acessibilidade e ações de mobilidade que permitiram a participação de públicos diversos. Vans vindas de diferentes regiões da cidade do Rio de Janeiro garantiram o acesso de pessoas com deficiência (PCDs), estudantes da rede pública de ensino, crianças atípicas e seus acompanhantes às atividades da programação.

Acessibilidade

A Mostra também contou com uma programação artística de grande relevância, reunindo espetáculos convidados de grupos e artistas que marcaram a trajetória do festival ao longo dos anos. Entre os destaques estiveram as apresentações do Grupo Teatral Aslucianas, anfitrião do evento, que levou ao público os espetáculos "Clarice do Brasil", obra premiada inspirada na vida e na obra de Clarice Lispector, e "A Porta Mágica", espetáculo infantil voltado à valorização da leitura, da criatividade e da imaginação.

Fotografia Michele Beff                                                                                    Clarice do Brasil

A programação audiovisual contou com a exibição online de quatro curtas-metragens. A votação popular registrou 179 votos, somados à avaliação do júri técnico especializado para a definição dos premiados da categoria. Já o Prêmio Aplauso Virtual, destinado às cenas curtas transmitidas por streaming, alcançou 1.108 votos do público, demonstrando o engajamento dos espectadores também no ambiente digital.

Ao todo, foram distribuídas 39 premiações entre as categorias de Curtas-Metragens, Espetáculos Infantis, Cenas Curtas e Premiações Especiais. Entre os destaques da edição estiveram os trabalhos “A Bruxa do Arco do Teles”, vencedor do Júri Popular de Curta-Metragem; “Raios de Sol”, eleito Melhor Espetáculo Infantil; “A Mala de Rubens”, vencedora da categoria Melhor Conjunto pelo Júri Técnico; e “O Auto de Santa Isabel”, escolhido pelo público como Melhor Cena da Mostra.

A avaliação dos trabalhos contou com um júri técnico formado por profissionais de reconhecida trajetória nas artes da cena. Integraram a comissão Anilia Francisca, formada em Artes Cênicas pela UNIRIO, Mestre Profissional em Teatro e Doutora em Artes da Cena pela UFRJ; Leandro Porto, ator, diretor e produtor cultural, formado em Artes Cênicas e pós-graduado em Gestão e Produção Cultural; e Flávia Souza, multiartista, atriz, cantora, coreógrafa, escritora e bacharela em Dança pela UFRJ.

O AUTO DE SANTA ISABEL/ Cia Cage - Vencedor pelo Juri Popular - Categoria Cenas Curtas


A Mostra também contou com o acompanhamento crítico de Dani Câmara, atriz, diretora, curadora e pesquisadora em artes da cena, formada em Direção Teatral pela UFRJ, e Juka Goulart, ator, produtor, dramaturgo, roteirista, figurinista e maquiador. Os críticos acompanharam as apresentações e produzirão registros e reflexões sobre os trabalhos apresentados durante o festival.

A Farra do Boi Bumbá - Vencedor de 4 categorias na Mostra Infantil - Os Ciclomáticos Cia de Teatro

Criada com o propósito de fortalecer a produção artística periférica e descentralizar o acesso à cultura, a Mostra Aslucianas reafirma sua importância como espaço de encontro, formação, circulação e reconhecimento de artistas independentes do estado do Rio de Janeiro. Ao longo de suas edições, o festival vem contribuindo para o fortalecimento das redes culturais, para a formação de público e para a democratização do acesso às artes cênicas.

Artistas na concentração do Festival

A 6ª Mostra Aslucianas foi realizada com apoio da Secretaria de Estado de Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro, por meio do Edital Fomenta Festival, reafirmando a importância das políticas públicas de cultura para o desenvolvimento artístico e social dos territórios fluminenses.

NÚMEROS DA 6ª MOSTRA ASLUCIANAS

• 15 dias de programação
• Cerca de 250 artistas participantes
• Aproximadamente 1.200 espectadores presenciais
• 3 oficinas gratuitas realizadas
• 4 curtas-metragens exibidos online
• 179 votos registrados no Júri Popular de Curtas-Metragens
• 1.108 votos registrados no Prêmio Aplauso Virtual das Cenas Curtas transmitidas via streaming
• 39 premiações distribuídas
• 1 júri técnico com 3 especialistas
• 2 críticos convidados para acompanhamento do festival
• Ações de acessibilidade e mobilidade para PCDs, crianças atípicas e estudantes da rede pública
• Espetáculos convidados e apresentações especiais de grupos de referência da cena fluminense

DESTAQUES DA PREMIAÇÃO

Curtas-Metragens

• Melhor Curta-Metragem (Júri Popular): “A Bruxa do Arco do Teles”
• Melhor Direção: Dudu Gehlen – “Judas é Meu Avô”
• Melhor Atuação: Juliana França – “Neguinho”

Espetáculos Infantis

• Melhor Espetáculo: “Raios de Sol”
• Prêmio Júri Mirim: “Família Rebola Bola”
• Melhor Direção: Ribamar Ribeiro – “A Farra do Boi Bumbá”

Cenas Curtas

• Melhor Conjunto (Júri Técnico): “A Mala de Rubens”
• Melhor Cena (Júri Popular): “O Auto de Santa Isabel”
• Melhor Direção: Ramon Cazuza – “Ratos e Urubus”
• Melhor Texto Autoral: Maíra Kirovsk – “As Coisas que Não Disse a Você”                                                     

                                                                           
• Melhor Pesquisa Cênica: “Torra Média”          

Premiações Especiais

• Melhor Produção: “A Menina Dança”
• Prêmio 1º Festival: “Artigos de Luxo”
• Divulga Aê: “Respira”
• Aplauso Virtual: “Tela Preta”
• Prêmio Estudantil: “O Auto de Santa Isabel”

A Mostra Aslucianas segue reafirmando seu compromisso com a formação, a diversidade, a acessibilidade e o fortalecimento da produção cultural fluminense, celebrando a arte produzida nos territórios periféricos e criando oportunidades para artistas de diferentes trajetórias e gerações.

GRUPO TEATRAL ASLUCIANAS

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