Crítica por Dani Câmara
Rio de Janeiro, Marechal Hermes |
Dia 23 de maio de 2026
Há uma inteligência cênica notável
na forma como o ator utiliza seu próprio repertório corporal para construir a
dramaturgia e os momentos sonoros. O domínio da voz, dos gestos e das ações
escolhidas para a cena evidencia a pesquisa do ator sobre si mesmo e sobre o
mundo que o cerca. A encenação de Ygor Fortino e Luis Fernando Rocha, junto à iluminação
de Nana Pereira, aposta em uma cena bem desenhada, permitindo que o corpo e a
palavra assumam centralidade. O figurino de Ster Tonini — um macacão que remete
ao universo operário, acompanhado da mochila — reforça a identidade do
espetáculo e dialoga diretamente com a figura do trabalhador e do estudante que
circulam pela cidade.
A autobiografia surge como um
elemento potente, não apenas por revelar experiências pessoais, mas por
transformá-las em linguagem artística capaz de gerar identificação e reflexão.
O resultado é um trabalho que estabelece forte diálogo com o território onde é
apresentado. Em uma mostra realizada em Marechal Hermes, por exemplo, a
narrativa encontra ressonância imediata junto ao público que compartilha, em
diferentes níveis, experiências semelhantes de deslocamento, trabalho e luta
cotidiana.
Ao mesmo tempo em que denuncia
estruturas de desigualdade, “Pêndulo Suburbano” preserva um lirismo delicado. O
projeto constrói um corpo insurgente que fala de resistência sem abrir mão da
esperança. Há uma dimensão sensível que atravessa toda a montagem, permitindo
que o espetáculo dialogue tanto com questões urgentes da realidade brasileira
quanto com aspectos profundamente humanos da experiência de existir e sonhar.
Como possibilidade de
aprofundamento, o trabalho pode seguir investigando a construção gestual ligada
aos percursos realizados pelo personagem ao longo da cidade, assumindo um texto
mais curto. O que pode ser dito pelos gestos sem o texto? Como a encenação já
opera com gestos bastante precisos e simbólicos, um refinamento ainda maior
desses movimentos, junto à dramaturgia — especialmente nos momentos que evocam
os deslocamentos de trem e os trajetos cotidianos — pode potencializar a
experiência do espectador. Não se trata apenas de aprimorar uma técnica, mas de
fortalecer a relação entre gesto, memória e emoção, ampliando a capacidade da
cena de conduzir o público para dentro da experiência vivida.
“Pêndulo Suburbano” é um trabalho
especial e toca direto o coração de quem assiste. Reafirma a potência do teatro
como espaço de escuta, reflexão e transformação, dando voz a narrativas que
historicamente atravessam a cidade, mas que nem sempre encontram lugar de fala
na vida e nos palcos. Parabéns a toda a equipe!
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Trata-se de uma obra que constrói
sua narrativa a partir da dramaturgia do corpo, situada entre o teatro e a
dança, em uma investigação sensível da presença e do movimento.
A unidade entre os intérpretes -
elenco, coro formado por Sol Sussuarana, Felipe Izidoro, Victor Lucas, Luana
Hyuuga, Alleker Soares, José Reis, Maias demonstra grande precisão técnica e
expressiva, entregando performances marcadas pela presença. É um dos grandes
destaques da montagem. Existe uma escuta coletiva muito forte, que sustenta a
cena e fortalece a expressividade do conjunto.
Nesse diálogo entre teatro e dança,
o espetáculo nos convida a perceber o corpo como território de poder, capaz de
produzir ruídos, sons, imagens e significados sem depender exclusivamente da
palavra. É um trabalho que merece continuar circulando e alcançando novos
públicos.
A direção de José Reis, acerta na
forma como organiza a encenação, construindo uma composição equilibrada. A
Cenografia de Thiago Pinheiro e figurino de José Reis e Caio Cone dialogam de
maneira harmoniosa com a proposta estética da obra, enquanto a trilha sonora de
Júlia Storino, José Arthur Fernandes e Bruno Rangel e iluminação de Wellington
Fox ampliam as camadas de sentido da encenação.
Também merece destaque a direção de
movimento de Kay Lima, que desenha a cena com forte teatralidade sem abrir mão
da dança nem da singularidade de cada artista. Os deslocamentos, as imagens
corporais e a composição coletiva revelam uma pesquisa cuidadosa com o universo
proposto.
Como provocação para futuras
investigações, a obra talvez possa aprofundar ainda mais a pesquisa de
maquiagem, ampliando as relações visuais com o universo simbólico construído em
cena e fortalecendo algumas das imagens que já se mostram bastante potentes. Da
mesma forma, sobre a investigação dos limites entre o som e o silêncio - ao
longo do espetáculo os artistas trabalham o quase falar, produzindo
vocalidades que criam atmosferas de
intensidade. Como esses recursos poderiam ser explorados a partir de um
silêncio ainda mais radical? Como construir suspense, tensão e dramaticidade
sem recorrer a qualquer emissão vocal?
Por fim, a proposta de encenação
menciona a inclusão da linguagem de sinais (LIBRAS), na cena. No entanto, esse elemento não se
torna perceptível durante a experiência. Fica a curiosidade sobre como essa
camada de pesquisa poderia ser inserida e consolidada ou deixada de lado para
explorar outras nuances que já existem na cena.
São reflexões que nascem justamente
da riqueza das possibilidades que o trabalho apresenta e que revelam um campo
fértil para novas experimentações.
Respira é um trabalho que conduz o
público por um percurso que transita da beleza ao drama, finalizando em uma
espécie de desterro que deixa os espectadores imersos em um universo de
silenciamento, convocando uma suspensão final necessária e muito marcante.
É um espetáculo sensível, necessário
e impactante. Um trabalho que demonstra o talento de toda a equipe envolvida e
reafirma a potência do corpo como espaço de criação, resistência e encontro.
Sou grata por ter assistido a uma obra tão bela e significativa.
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Desde o início, chamam atenção o
figurino de Rosa dos Anjos, os desenhos de luz de Juliana Amorim, a maquiagem
de Getúlio Nascimento e os elementos cênicos que compõem um conjunto harmonioso
na encenação. As garrafas, o alguidar e a ocupação da boca de cena desenham um
território próprio, um espaço que nos convida a atravessar a encruzilhada junto
com essas figuras e seus universos periféricos.
A presença da instrumentista Nathália
Vilela é outra grande potência da cena. Conduzindo a narrativa com o atabaque,
ela sustenta o ritmo e a pulsação do espetáculo. Em tradições de matriz
africana, o tambor é memória, comunicação e vida; é coração que pulsa. Ver uma
mulher ocupando esse lugar de diálogo ancestral amplia a experiência sensorial
e também a dimensão política da obra. Sua presença não apenas acompanha a ação,
mas fortalece a atmosfera ritual que atravessa toda a encenação.
Também chama atenção a delicadeza
com que o espetáculo aborda questões sensíveis, urgentes e temas complexos
atravessados pela escuta, pela imaginação e cuidado.
Como continuidade dessa pesquisa, a
dramaturgia e a direção podem aprofundar as narrativas ligadas às entidades que
habitam a cena e mergulhar nas relações entre Teatro Neo-Absurdo e Teatro
Documental, ampliando a presença e a força dessas histórias no palco. Da mesma
maneira, um olhar mais atento para a cosmologia de Exu tende a enriquecer o
jogo das intérpretes e a dimensão ritual da obra, potencializando o uso de
elementos como o alguidar, e o sagrado que abriga as oferendas, assim como as
garrafas presentes ao longo da encenação. Estas, na cultura vodun Jeje, não se
limitam à função de recipientes, mas carregam uma dimensão sagrada de ser o
próprio assentamento onde a divindade ou o espírito habita. Como manusear de
forma precisa o sagrado? Nesse percurso, a pesquisa dialoga com reflexões de
Leda Maria Martins sobre ‘oralitura’, ‘corpo-tela’ e ‘tempo espiralar’, além de
estabelecer aproximações com o Teatro Preto de Candomblé desenvolvido por
Onisajé e com experiências contemporâneas como Menina Mojubá, espetáculo que se
tornou uma importante referência da cena carioca na pesquisa sobre Teatro de
Terreiro. São referências capazes de expandir uma investigação que já demonstra
identidade, sensibilidade e potência próprias.
Mirins cria imagens marcantes
e encontra bonitos caminhos para falar de memória, espiritualidade e
resistência. É um trabalho que pulsa com força e deixa no público o desejo de
acompanhar os próximos passos desse trabalho necessário.
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Na direção, dramaturgia e atuação,
Ramon Cazuza toma como referência o emblemático enredo Ratos e Urubus,
Larguem Minha Fantasia, apresentado pela Beija-Flor de Nilópolis em 1989
sob criação de Joãosinho Trinta. Ao recuperar esse marco da história do
carnaval brasileiro, a montagem reforça a dimensão política da avenida como
espaço de denúncia e disputa de narrativas.
Essa perspectiva se amplia com a
presença de uma mulher à frente da bateria, gesto que desloca estruturas
historicamente patriarcais. As passistas e a porta-bandeira evocam resistência,
ancestralidade e axé, sustentando a força simbólica da cena e afirmando a
realeza negra presente no universo do samba.
Ao lado de Ramon, Larissa Magalhães,
Lorrayne Kaye, Bebel Ribas e Brenda Gabrielle demonstram vigor, inteligência
cênica, harmonia e forte senso de coletividade, qualidades visíveis na forma como
o grupo executa as coreografias com precisão e traduz em movimento as camadas
simbólicas da obra, criando imagens de grande impacto.
A trilha sonora, assinada por Rafael
Silvestre, Allan Arcânjo e Ramon Cazuza, intensifica a experiência do público
ao dialogar com o figurino e a cenografia de Sérgio Ribas e Ivone Oliveira.
Juntos, esses elementos recriam o imaginário da Sapucaí e mantêm pulsando o
coração do samba, transformando o palco em um território de celebração e
resistência.
A montagem denuncia e anuncia;
questiona e celebra, tudo ao mesmo tempo! O resultado é uma cena potente e
emocionante, que faz o coração do espectador gingar junto ao samba e que
reafirma o carnaval como espaço de luta, pertencimento e construção de futuros.
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