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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 30/05/2026

 


Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 30 de Maio de 2025

 


Artigos de Luxo, um trabalho de forte coesão estética e expressiva, onde a unidade entre atuação, figurino, cenografia e dramaturgia sustenta um universo cênico consistente e pulsante. A encenação constrói uma experiência em que cada elemento parece dialogar com o outro de forma orgânica, reforçando a sensação de um projeto artístico cuidadosamente articulado, tanto no plano visual quanto no jogo dos corpos em cena.

O trabalho dos quatro intérpretes revela versatilidade e precisão nas marcações, criando uma dinâmica de cena fluída, em que as transições e relações entre os personagens são conduzidas com clareza e intensidade. Há um entendimento coletivo do jogo teatral que fortalece a presença cênica do grupo, ampliando a potência das situações dramatizadas e permitindo que a cena se desdobre em diferentes camadas de leitura.

A cenografia e o figurino, assinados por Ricardo Melchiades, dialogam diretamente com o universo proposto por Lilian Guerra, contribuindo para a construção de uma atmosfera que tensiona e comenta a própria ação dramática. Essa integração entre elementos visuais e narrativos reforça o caráter estético do espetáculo, ao mesmo tempo em que potencializa seus atravessamentos sociais.

Sob a direção coletiva de Daniel Roberto, Isabela Souza, Raiane Souza e Ricardo Melchiades, com supervisão de Eduardo Vaccari, o trabalho se estrutura como um campo de investigação cênica que articula diferentes olhares e trajetórias artísticas, especialmente a partir de jovens artistas da Zona Oeste e da Baixada Fluminense. Essa diversidade de origens e experiências se reflete na cena, trazendo densidade e enraizamento em realidades sociais específicas. Seguir lapidando as construções subjetivas de cada artista criador pode dar ainda mais sentido às cenas e pode ajudar a construir ainda mais sentido nas relações apresentadas.

“Artigos de Luxo” é uma reflexão sobre as fissuras sociais que atravessam o cotidiano, especialmente em contextos periféricos e de vulnerabilidade. A dramaturgia se organiza de forma a partir de imagens que criam imagens poéticas capazes de abrir espaço para leituras críticas e diretas das relações sociais. É um trabalho que se destaca pela organização cênica, pela beleza de suas composições e pela força de seu coletivo criativo, revelando um potencial significativo de amadurecimento e continuidade dentro de sua pesquisa artística.

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“O Auto de Santa Isabel", é uma cena instigante que articula de forma inteligente o jogo cênico dos atores, a comicidade presente no texto de Rasec Rodrigues e uma direção bem estruturada, assinada pelo próprio criador em parceria com Gabriel Angel. A encenação se dá a partir de um universo cômico altamente expressivo, no qual os intérpretes exploram com precisão os desenhos de luz — por meio do uso de lanternas — e as possibilidades corporais para dar forma a uma narrativa atravessada pelo humor, sem abrir mão de uma reflexão crítica.

 

Partindo de um tema delicado — as relações entre lideranças religiosas, políticas e seus impactos na formação cultural e social — o espetáculo elabora uma crítica mediada por uma linguagem cênica que integra dança, música e marcações de coro. Esses elementos estruturam uma estética burlesca cuidadosamente construída, na qual a expressividade física dos personagens desempenham papel central na condução dramatúrgica.

O elenco formado por Carolina Silva, Nath Pires, Gabriel Angel, Diogo Luiz e Rasec Rodrigues — que também assina cenografia, figurino e trilha sonora — estabelece uma dinâmica potente em cena, sustentada por um diálogo preciso com a iluminação de Francisco Hashiguchi e pela maquiagem marcante concebida pelo coletivo. Juntos, esses elementos constroem um universo cênico em que comicidade, denúncia e teatralidade se entrelaçam de modo orgânico.

O resultado é uma obra que provoca o espectador a revisitar criticamente comportamentos, discursos e estruturas sociais, a partir de uma experiência estética viva e inventiva. O coletivo CAGE de São Gonçalo é criativo, tem muita e maturidade cênica, entregando um trabalho que deixa no público o desejo de assistir mais vezes e seguir acompanhando a pesquisa e trajetória do grupo, parabéns a toda equipe!!!



“Facada”, o espetáculo se estrutura a partir da autoficção como dispositivo dramatúrgico, utilizando-a para tensionar e desconstruir a própria cena. A partir da paródia de um acontecimento real, os quatro artistas em cena constroem uma narrativa fragmentada, que se abre em múltiplos parênteses cênicos, explorando formas e caricaturas na fabulação da história.

A encenação aposta em recursos expressivos como a mímica, a fisicalidade exagerada e a exploração sonora integrada às ações dos atores e até mesmo à relação com o público, instaurando uma dinâmica de jogo que rompe com a linearidade narrativa e convoca o espectador a participar desse universo em constante reinvenção.

Em cena, Luciano Fierro, Mau Moreira, Michelle Malc e Rodrigo Horta demonstram forte entrosamento e liberdade criativa, sustentando um jogo cênico vibrante, marcado pelo humor e pela irreverência. Destaca-se, nesse processo, o trabalho de Mau Moreira, que além de atuar, também assina a dramaturgia, articulando com precisão uma escrita cênica que potencializa o caráter cômico e a estrutura fragmentada da obra.

Outro elemento relevante é a camada sonora, cuidadosamente elaborada por Fernando Moreira, que amplia as atmosferas da cena e cria densidades rítmicas na encanação. A iluminação de Júlia Orlando também se destaca, ao instaurar recortes visuais que reforçam o tom estilizado e bufonesco do espetáculo.

O coletivo se sobressai pela consistência de sua pesquisa cênica e pela forma como articula atuação, dramaturgia e elementos técnicos em uma obra coesa e bem estruturada. A proposta de criação é destaque da crítica e evidencia um processo maduro de investigação artística, capaz de transformar o riso em dispositivo crítico e poético. Que o trabalho do grupo siga projetando a pesquisa marcante do grupo nos palcos alcançando mais e mais público pelo Brasil afora!


É Menino? A proposta de encenação com três atores chama atenção pela harmonia construída entre imagem, corpo, figurino e a utilização precisa dos acessórios cênicos. Há uma clareza e uma limpeza no desenho do espaço, estruturado a partir de cadeiras, muito bem articuladas pela cenografia de Lucas Rezende e pela iluminação de Caio César, compondo um ambiente cênico preciso e funcional. Soma-se a isso uma composição coreográfica sustentada pela repetição de gestos, que se desdobra como princípio dramatúrgico.

Ao tensionar discursos sobre masculinidade, a peça adentra um campo urgente e contemporâneo, problematizando construções sociais que naturalizam comportamentos e afetos ligados ao gênero. Nesse sentido, a encenação propõe uma reflexão sobre a possibilidade de desconstrução da masculinidade tóxica e sobre o abandono de padrões normativos que regulam o corpo, o desejo e a expressão afetiva.

A criação coletiva da Cia Expressarte é consistente tanto na direção quanto na escrita cênica compartilhada, evidenciando um processo de construção horizontal que se reflete diretamente na cena. Os intérpretes Nilton Maia, Lucas Rezende e Mário César sustentam com precisão esse pacto cênico, estabelecendo uma unidade que fortalece a dramaturgia e amplia sua densidade poética e política.

O resultado é uma cena que articula forma e conteúdo com equilíbrio, produzindo um trabalho de forte presença estética e de evidente engajamento crítico, sem abrir mão da delicadeza na composição das imagens e na condução do jogo teatral. É um lindo e tocante trabalho!!!



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