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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 29/05/2026

 



Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 29 de Maio de 2025

 


Antígona, propõe uma releitura contemporânea da tragédia clássica atravessada por uma experiência profundamente brasileira, marcada sobretudo pela vivência negra e periférica. Mais do que atualizar o mito, a encenação o reinscreve como ferramenta política no presente, onde Renata Tavares e Thiago Ribeiro acertam ao construir uma Antígona que reivindica justiça a partir de referências concretas do cotidiano das favelas, estabelecendo um diálogo direto com o movimento de Justiça guiado por mães de vítimas dos assassinatos em favela. E a partir de uma encenação estruturada por escolhas precisas e concisas entre as cenas, fortalece a leitura simbólica e a força dramatúrgica do espetáculo.

O figurino e a maquiagem de Nega Lu incorporam elementos como Kenner, boné e camisa de time, deslocando a tragédia grega para um universo urbano sem perder sua dimensão ritual. A presença da quartinha e da espada de São Jorge, amplia as camadas de significação da cena, ativando no espaço cênico uma relação viva entre ancestralidade, resistência e memória.

A interpretação de Nega Lu como Antígona sustenta a urgência da personagem, articulando força e astúcia cênica em uma presença que ultrapassa a condição de símbolo e se afirma como corpo atravessado por história e território, intensificando a busca da encenação por justiça e potência política. Em contraponto, a atuação de Bruno Martins amplia as tensões do jogo cênico ao instaurar uma presença que dialoga com os conflitos da cena, tensionando os limites entre rigidez e escuta dramatúrgica.

No campo da visualidade, a cenografia de Rafael Rogues, em diálogo com a concepção de iluminação de Lucas da Silva, organiza o espaço a partir de um círculo central que funciona como dispositivo cênico e núcleo de relações em constante atrito. Essa disposição espacial fortalece o vínculo entre intérpretes e elementos da cena, instaurando um ambiente de permanente tensão e circulação de sentidos.

Ainda que a obra revele um cuidado consistente na construção de seus signos, há momentos em que tais elementos poderiam ser mais explorados na ação dos atores. Da mesma forma, alguns diálogos entre Antígona e Creonte poderiam ganhar maior concisão, ampliando sua força dramática e aproximando ainda mais o clássico de sua leitura contemporânea e do público.

Antígona traz uma proposta cênica relevante na cena contemporanea, que desloca uma das tragédias fundadoras do teatro ocidental para um território negro e brasileiro. A encenação desperta o desejo de assistir e revisitar a cena, pela força das imagens, pela potência política do discurso e pela maneira como trabalha o mito no presente, mantendo-o vivo, inquieto e atual. É uma cena que emociona e vale e merece seguir circulando pelos palcos brasileiros. Vida longa!

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“Torra Média”, se inscreve no campo das poéticas contemporâneas do corpo, onde a cena se organiza como um espaço de fricção entre gesto, ritmo e sonoridade. A encenação é sensível, junto do texto e da trilha sonora, também concebidos por Vinícius S., que operam como princípio da ação, criando tensões contínuas com os corpos em cena e convocando o espectador a uma experiência de escuta visual e corporal.

A dramaturgia se desdobra sem linearidade textual, mas com forte investimento na arquitetura de ações. O gesto, explorado até o limiar da exaustão, emerge, aproximando a encenação de matrizes pós-dramáticas em que a repetição se configura, atribuindo ainda mais sentido à cena. Nesse campo, a presença de ecos da dança-teatro de Pina Bausch pode ser percebida não só pela citação direta, mas como filiação estética: um modo de organizar o corpo em estado de vulnerabilidade e estranhamento.

A cenografia e o figurino de Ricardo Melchíades participam ativamente dessa tessitura, não apenas como ambientação, mas como corpos expandidos da própria dramaturgia, compondo uma visualidade que vibra em consonância com a trilha sonora e com as modulações luminosas de Rafa Domi. A iluminação, nesse contexto, opera como escritura do espaço, desenhando zonas de presença e suspensão certeiras.

No campo performativo, destacam-se Rayane Souza, no papel de Ana, e Ricardo Melchíades, protagonistas da obra, cuja atuação se ancora em uma ética da presença física e leveza. Seus corpos se lançam em uma partitura de ações que articula repetição e precisão, construindo uma corporalidade que parece tensionar os próprios limites. Há, nesse sentido, uma escrita do corpo que se aproxima de uma poética da exaustão como método de composição.

A experiência cênica  é forte e sensível, e produz mundos por meio da articulação entre som, corpo e luz. Trata-se de uma obra que convoca o espectador a um regime de atenção expandida, no qual a percepção é deslocada do habitual para um campo de possibilidades produtivas.

Entretanto, essa mesma radicalidade abre uma questão crítica pertinente: em que medida tal densidade poética encontra ressonância em públicos mais amplos, especialmente em contextos de formação de plateia fora dos circuitos hegemônicos? A potência estética do trabalho reside justamente nessa tensão entre experimentação, comunicação e abertura de sentidos. É nesse intervalo que a cena  se afirma como obra viva — como pergunta em movimento.

A encenação tem uma proposição estética consistente, que investe na materialidade do corpo e na musicalidade da cena como modos de pensamento, reafirmando o teatro como espaço de experimentação sensível e de reinvenção do olhar. Parabéns a toda equipe!

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“A mala de Rubens” da Trupe Silvas de Teatro, é uma encenação forte e com densidade sensorial, na qual corpo, voz e imagem se articulam para construir uma experiência que ultrapassa a narrativa linear e se instala no campo do acontecimento. É um trabalho que aposta na intensidade física, emocional e social como eixos estruturantes de sua poética, produzindo uma cena que vibra entre o sensível e o simbólico, entre a materialidade do gesto e a elaboração estética da memória.

A encenação, assinada por Madu Emmerick — que também assume a dramaturgia —, revela um olhar atento para a construção de um teatro de coro, no qual a potência do coletivo não se dissolve em unidades individuais, mas se expande na relação entre os corpos. O grupo em cena demonstra notável disponibilidade física e vocal, operando com precisão em um campo híbrido de linguagens: canto, execução musical ao vivo, dança e atuação. Essa escolha estética reforça a ideia de uma cena expandida, em que a teatralidade se constrói pela sobreposição de camadas expressivas.

O elenco composto por João Vitor Ferraz, Mauro Freia, Beatriz Genuncio, Jhessy S., Amanda Lívia, Rapha Jobim e Francisca Pereira sustenta a cena com vigor e escuta coletiva. Há uma coesão evidente no modo como o elenco ocupa o espaço com jogo, com a composição em grupo e a circulação de energia entre os corpos. As performances  criam uma paisagem cênica compartilhada, na qual cada gesto reverbera no conjunto. É muito bonito assistir!

No plano visual e material, a cenografia de Rapha Jobim e o figurino Amanda Lívia os dois desenvolvido em parceria com Madu contribuem para a exploração de um universo imagético em diálogo direto com a dramaturgia corporal do espetáculo. A maquiagem, criada pelo próprio coletivo, reforça o sensível da montagem, enquanto a trilha sonora de Juliane Andrade e a iluminação de Rafa Domi instauram uma atmosfera que oscila entre o lúdico e o inquietante, ampliando a percepção do espectador e tensionando os sentidos da cena.

Destaca-se ainda a inserção, ao final da encenação, de uma atriz mais experiente, cuja presença introduz uma camada geracional significativa ao espetáculo. Esse gesto amplia o horizonte poético da obra ao tensionar diferentes temporalidades em cena, sugerindo uma reflexão sobre memória, continuidade e transmissão. Trata-se de uma aparição que desloca a percepção do público e adiciona espessura simbólica ao percurso dramatúrgico.

A força do trabalho é a consistência da pesquisa da Trupe Silvas de Teatro, de São Gonçalo, que vem consolidando uma identidade artística própria na cena contemporânea. O grupo demonstra maturidade na articulação entre diferentes linguagens e uma marcante teatralidade que nasce do corpo em ação, da coletividade e da invenção contínua.

Em A mala de Rubens, o que se vê é construção de um território poético em permanente deslocamento, onde o teatro se afirma como experiência compartilhada, sensível e viva. Um belo, intenso, pulsante, marcante e potente projeto em estado de presença.

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“O Último Ato” traz uma direção que acerta ao afirmar a potência do artista como gesto de manifesto poético-político, articulando essa dimensão a uma crítica à ditadura militar. A partir do jogo estabelecido entre os atores, uma cena de forte apelo estético, cuidadosamente composta e visualmente envolvente é construída.

Um dos pontos altos do espetáculo é a maquiagem de Larine Savinon, que adorna, caracteriza e estrutura visualmente os corpos em cena. Em diálogo com o figurino e com a parceria de Denair, amplia um universo de possibilidades expressivas, no qual cada camada visual parece operar como extensão dramatúrgica. A atuação, texto e direção partem da própria artista, o que confere à obra uma unidade autoral evidente e marcante.

Destaca-se ainda a atuação de Daniel Mota, que contribui expressivamente na construção do campo sensível da cena. Em articulação com a iluminação criativa de Duda Fulco, o espetáculo ganha espessura poética, expandindo suas atmosferas e reforçando a dimensão lírica que o atravessa.

Se por um lado a encenação apresenta uma visualidade potente e bem resolvida, por outro, a cenografia, muito bela, parece pedir maior depuração em diálogo com a encenação. Um desenho mais enxuto poderia preservar apenas o essencial para sustentar a atmosfera lírica da proposta, potencializando sua força. O texto também se beneficiaria de um refinamento, especialmente no que diz respeito a evidenciar a comicidade que atravessa essa tragédia contemporânea. Há um campo fértil entre humor e denúncia que pode ser mais explorado, ampliando a construção dos personagens e aprofundando o universo em que estão inseridos.

A trilha sonora de Cadu Werly e Wallace Luz sustenta com sensibilidade o território lúdico da cena, funcionando como um eixo importante da composição. Um ajuste nos volumes pode fortalecer ainda mais a linguagem dramática, artística e política da obra, que já se afirma com magia e encanto nos palcos! Continuem pesquisando e brilhando em cena!!!

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