Crítica por Dani Câmara
Rio de Janeiro, Marechal Hermes |
Dia 29 de Maio de 2025
O figurino e a maquiagem de Nega Lu
incorporam elementos como Kenner, boné e camisa de time, deslocando a tragédia
grega para um universo urbano sem perder sua dimensão ritual. A presença da
quartinha e da espada de São Jorge, amplia as camadas de significação da cena,
ativando no espaço cênico uma relação viva entre ancestralidade, resistência e
memória.
A interpretação de Nega Lu como
Antígona sustenta a urgência da personagem, articulando força e astúcia cênica
em uma presença que ultrapassa a condição de símbolo e se afirma como corpo
atravessado por história e território, intensificando a busca da encenação por
justiça e potência política. Em contraponto, a atuação de Bruno Martins amplia
as tensões do jogo cênico ao instaurar uma presença que dialoga com os
conflitos da cena, tensionando os limites entre rigidez e escuta dramatúrgica.
No campo da visualidade, a
cenografia de Rafael Rogues, em diálogo com a concepção de iluminação de Lucas
da Silva, organiza o espaço a partir de um círculo central que funciona como
dispositivo cênico e núcleo de relações em constante atrito. Essa disposição
espacial fortalece o vínculo entre intérpretes e elementos da cena, instaurando
um ambiente de permanente tensão e circulação de sentidos.
Ainda que a obra revele um cuidado
consistente na construção de seus signos, há momentos em que tais elementos
poderiam ser mais explorados na ação dos atores. Da mesma forma, alguns
diálogos entre Antígona e Creonte poderiam ganhar maior concisão, ampliando sua
força dramática e aproximando ainda mais o clássico de sua leitura
contemporânea e do público.
Antígona traz uma proposta cênica
relevante na cena contemporanea, que desloca uma das tragédias fundadoras do
teatro ocidental para um território negro e brasileiro. A encenação desperta o
desejo de assistir e revisitar a cena, pela força das imagens, pela potência
política do discurso e pela maneira como trabalha o mito no presente,
mantendo-o vivo, inquieto e atual. É uma cena que emociona e vale e merece
seguir circulando pelos palcos brasileiros. Vida longa!
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A dramaturgia se desdobra sem
linearidade textual, mas com forte investimento na arquitetura de ações. O
gesto, explorado até o limiar da exaustão, emerge, aproximando a encenação de
matrizes pós-dramáticas em que a repetição se configura, atribuindo ainda mais
sentido à cena. Nesse campo, a presença de ecos da dança-teatro de Pina Bausch
pode ser percebida não só pela citação direta, mas como filiação estética: um
modo de organizar o corpo em estado de vulnerabilidade e estranhamento.
A cenografia e o figurino de Ricardo
Melchíades participam ativamente dessa tessitura, não apenas como ambientação,
mas como corpos expandidos da própria dramaturgia, compondo uma visualidade que
vibra em consonância com a trilha sonora e com as modulações luminosas de Rafa
Domi. A iluminação, nesse contexto, opera como escritura do espaço, desenhando
zonas de presença e suspensão certeiras.
No campo performativo, destacam-se
Rayane Souza, no papel de Ana, e Ricardo Melchíades, protagonistas da obra,
cuja atuação se ancora em uma ética da presença física e leveza. Seus corpos se
lançam em uma partitura de ações que articula repetição e precisão, construindo
uma corporalidade que parece tensionar os próprios limites. Há, nesse sentido,
uma escrita do corpo que se aproxima de uma poética da exaustão como método de
composição.
A experiência cênica é forte e sensível, e produz mundos por meio
da articulação entre som, corpo e luz. Trata-se de uma obra que convoca o
espectador a um regime de atenção expandida, no qual a percepção é deslocada do
habitual para um campo de possibilidades produtivas.
Entretanto, essa mesma radicalidade
abre uma questão crítica pertinente: em que medida tal densidade poética
encontra ressonância em públicos mais amplos, especialmente em contextos de
formação de plateia fora dos circuitos hegemônicos? A potência estética do
trabalho reside justamente nessa tensão entre experimentação, comunicação e abertura
de sentidos. É nesse intervalo que a cena
se afirma como obra viva — como pergunta em movimento.
A encenação tem uma proposição
estética consistente, que investe na materialidade do corpo e na musicalidade
da cena como modos de pensamento, reafirmando o teatro como espaço de
experimentação sensível e de reinvenção do olhar. Parabéns a toda equipe!
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A encenação, assinada por Madu
Emmerick — que também assume a dramaturgia —, revela um olhar atento para a
construção de um teatro de coro, no qual a potência do coletivo não se dissolve
em unidades individuais, mas se expande na relação entre os corpos. O grupo em
cena demonstra notável disponibilidade física e vocal, operando com precisão em
um campo híbrido de linguagens: canto, execução musical ao vivo, dança e
atuação. Essa escolha estética reforça a ideia de uma cena expandida, em que a
teatralidade se constrói pela sobreposição de camadas expressivas.
O elenco composto por João Vitor
Ferraz, Mauro Freia, Beatriz Genuncio, Jhessy S., Amanda Lívia, Rapha Jobim e
Francisca Pereira sustenta a cena com vigor e escuta coletiva. Há uma coesão
evidente no modo como o elenco ocupa o espaço com jogo, com a composição em
grupo e a circulação de energia entre os corpos. As performances criam uma paisagem cênica compartilhada, na
qual cada gesto reverbera no conjunto. É muito bonito assistir!
No plano visual e material, a
cenografia de Rapha Jobim e o figurino Amanda Lívia os dois desenvolvido em
parceria com Madu contribuem para a exploração de um universo imagético em
diálogo direto com a dramaturgia corporal do espetáculo. A maquiagem, criada
pelo próprio coletivo, reforça o sensível da montagem, enquanto a trilha sonora
de Juliane Andrade e a iluminação de Rafa Domi instauram uma atmosfera que
oscila entre o lúdico e o inquietante, ampliando a percepção do espectador e
tensionando os sentidos da cena.
Destaca-se ainda a inserção, ao
final da encenação, de uma atriz mais experiente, cuja presença introduz uma
camada geracional significativa ao espetáculo. Esse gesto amplia o horizonte
poético da obra ao tensionar diferentes temporalidades em cena, sugerindo uma
reflexão sobre memória, continuidade e transmissão. Trata-se de uma aparição
que desloca a percepção do público e adiciona espessura simbólica ao percurso
dramatúrgico.
A força do trabalho é a consistência
da pesquisa da Trupe Silvas de Teatro, de São Gonçalo, que vem consolidando uma
identidade artística própria na cena contemporânea. O grupo demonstra
maturidade na articulação entre diferentes linguagens e uma marcante
teatralidade que nasce do corpo em ação, da coletividade e da invenção
contínua.
Em A mala de Rubens, o que se vê é
construção de um território poético em permanente deslocamento, onde o teatro
se afirma como experiência compartilhada, sensível e viva. Um belo, intenso,
pulsante, marcante e potente projeto em estado de presença.
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Um dos pontos altos do espetáculo é
a maquiagem de Larine Savinon, que adorna, caracteriza e estrutura visualmente
os corpos em cena. Em diálogo com o figurino e com a parceria de Denair, amplia
um universo de possibilidades expressivas, no qual cada camada visual parece
operar como extensão dramatúrgica. A atuação, texto e direção partem da própria
artista, o que confere à obra uma unidade autoral evidente e marcante.
Destaca-se ainda a atuação de Daniel
Mota, que contribui expressivamente na construção do campo sensível da cena. Em
articulação com a iluminação criativa de Duda Fulco, o espetáculo ganha
espessura poética, expandindo suas atmosferas e reforçando a dimensão lírica
que o atravessa.
Se por um lado a encenação apresenta
uma visualidade potente e bem resolvida, por outro, a cenografia, muito bela,
parece pedir maior depuração em diálogo com a encenação. Um desenho mais enxuto
poderia preservar apenas o essencial para sustentar a atmosfera lírica da proposta,
potencializando sua força. O texto também se beneficiaria de um refinamento,
especialmente no que diz respeito a evidenciar a comicidade que atravessa essa
tragédia contemporânea. Há um campo fértil entre humor e denúncia que pode ser
mais explorado, ampliando a construção dos personagens e aprofundando o
universo em que estão inseridos.
A trilha sonora de Cadu Werly e
Wallace Luz sustenta com sensibilidade o território lúdico da cena, funcionando
como um eixo importante da composição. Um ajuste nos volumes pode fortalecer
ainda mais a linguagem dramática, artística e política da obra, que já se
afirma com magia e encanto nos palcos! Continuem pesquisando e brilhando em
cena!!!
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