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segunda-feira, 8 de junho de 2026

CRÍTICA TEATRAL - A MALA DE RUBENS

   


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 29/05/2026

A Mala de Rubens





O grande mérito de A Mala de Rubens está na delicadeza com que retrata uma trajetória marcada pelo deslocamento e pela busca de pertencimento. A direção demonstra sensibilidade ao conduzir a narrativa, apoiada por um elenco entrosado e comprometido.

A ambientação, os figurinos e a trilha sonora transportam o público para um universo nordestino construído com respeito e autenticidade, evitando estereótipos e oferecendo um olhar humano sobre seus personagens.

Frase de efeito: As histórias mais singelas costumam carregar as maiores verdades.


















CRÍTICA TEATRAL- TORRA MÉDIA

 

  


Crítica por Juka Goulart

Apresentado em 29/05/2026


Torra Média




Em Torra Média, a dinâmica entre repetição e alternância de protagonismo constrói uma encenação que se apoia fortemente no trabalho corporal dos intérpretes. A direção conduz a narrativa com segurança, permitindo que os atores explorem com naturalidade as trocas de energia e foco em cena.

A sintonia entre os intérpretes é um dos principais méritos da montagem, contribuindo para a fluidez da apresentação.

Frase de efeito: A simplicidade ganha força quando encontra precisão e verdade em cena.












 

domingo, 7 de junho de 2026

CRÍTICAS TEATRAIS - A MENINA DANÇA

  


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 30/05/2026

A Menina Dança




O teatro infantil possui uma importante função formadora, e A Menina Dança cumpre esse papel ao apresentar ao público a trajetória de Maria Felipa, uma das figuras femininas mais relevantes e, ao mesmo tempo, menos conhecidas da luta pela independência do Brasil.

A montagem combina informações históricas, música, dança e elementos da cultura afro-brasileira para construir uma narrativa envolvente e educativa. O figurino merece destaque especial pela beleza e versatilidade, transformando-se ao longo da encenação para acompanhar as diferentes passagens da história.

Talvez justamente pela escassez de registros sobre a personagem, a dramaturgia pudesse se permitir explorar ainda mais o território da imaginação. Assumindo claramente o caráter ficcional de determinados momentos, seria possível ampliar a dimensão épica da protagonista e aproximar ainda mais o público de sua trajetória.

Em um país que ainda conhece tão pouco suas heroínas, espetáculos como este desempenham um papel fundamental na construção da memória coletiva.

Frase de efeito: Contar a história de nossas heroínas é também construir o futuro de nossas crianças.











 

CRÍTICAS TEATRAIS - ANTÍGONA

  


Crítica por Juka Goulart
Apresentado em 29/05/2026

Antígona



Adaptar um clássico é sempre um desafio, e Antígona encontra relevância ao transportar a tragédia de Sófocles para questões contemporâneas. O elenco sustenta a narrativa com atuações consistentes e comprometidas.

Como possibilidade de crescimento, a cenografia poderia assumir uma função mais ativa dentro da encenação, permitindo que seus elementos participassem efetivamente da construção dramática. O figurino também poderia buscar soluções menos ilustrativas e mais simbólicas, fortalecendo a proposta estética da montagem.


No conjunto, o espetáculo reafirma a atualidade dos grandes clássicos e sua capacidade de dialogar com o presente.

Frase de efeito: Os clássicos permanecem vivos quando encontram novas formas de dialogar com seu tempo.






 

quinta-feira, 4 de junho de 2026

DANI CÂMARA FALA SOBRE A MOSTRA ASLUCIANAS

 

Sobre a VI MOSTRA ASLUCIANAS!


Primeiramente, agradeço o convite e a confiança. Participar da Mostra Aslucianas é se aproximar de uma trajetória viva, criada com insistência e poesia pelo Grupo Aslucianas na Zona Norte carioca, onde o teatro se afirma com relevância e resistência.

A Mostra se desenha como um território de escuta e partilha, onde diferentes vozes e corpos se encontraram para projetar a força do teatro, da pesquisa e da diversidade. Ao longo da edição acompanhamos um evento de formação de público e de artistas, reunindo centenas de criadores e espectadores em torno da experiência teatral. Muito lindo e necessário todo o movimento!

Com 20 cenas curtas, 4 espetáculos infantis, 4 curtas-metragens, além de apresentações convidadas que atravessaram teatro, dança, performance e música, a edição fez história. Foi uma programação-constelação de linguagens e 40 premiações, que se tocaram e se contaminaram, ampliando o olhar e a sensibilidade de quem assistiu e subiu no palco.

A proposta de ações formativas que atravessou toda a Mostra — especialmente nas oficinas gratuitas — trouxe ainda mais força ao processo cênico, que também contou com recursos de acessibilidade em Libras, audiodescrição, além de óculos e fones voltados à hipersensibilidade à luz e ao som. Essas estratégias expandiram o alcance de público, tornando a experiência mais inclusiva e sensível às diferentes formas de percepção.

Realizada no Teatro Armando Gonzaga, em Marechal Hermes, a Mostra Aslucianas faz acender a luz do subúrbio carioca e sua potência criativa, território de invenção e de pensamento artístico, crítico e político — um campo de permanência, encontro e resistência através da arte.

Parabéns a todo o grupo e a toda a equipe técnica que fizeram a magia acontecer. E aconteceu bonito!!! Avante!!!

 


CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 30/05/2026

 


Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 30 de Maio de 2025

 


Artigos de Luxo, um trabalho de forte coesão estética e expressiva, onde a unidade entre atuação, figurino, cenografia e dramaturgia sustenta um universo cênico consistente e pulsante. A encenação constrói uma experiência em que cada elemento parece dialogar com o outro de forma orgânica, reforçando a sensação de um projeto artístico cuidadosamente articulado, tanto no plano visual quanto no jogo dos corpos em cena.

O trabalho dos quatro intérpretes revela versatilidade e precisão nas marcações, criando uma dinâmica de cena fluída, em que as transições e relações entre os personagens são conduzidas com clareza e intensidade. Há um entendimento coletivo do jogo teatral que fortalece a presença cênica do grupo, ampliando a potência das situações dramatizadas e permitindo que a cena se desdobre em diferentes camadas de leitura.

A cenografia e o figurino, assinados por Ricardo Melchiades, dialogam diretamente com o universo proposto por Lília Guerra, contribuindo para a construção de uma atmosfera que tensiona e comenta a própria ação dramática. Essa integração entre elementos visuais e narrativos reforça o caráter estético do espetáculo, ao mesmo tempo em que potencializa seus atravessamentos sociais.

Sob a direção coletiva de Daniel Alberto, Isabelle Souza, Ray Souza e Ricardo Melchiades, com supervisão de Eduardo Vaccari, o trabalho se estrutura como um campo de investigação cênica que articula diferentes olhares e trajetórias artísticas, especialmente a partir de jovens artistas da Zona Oeste e da Baixada Fluminense. Essa diversidade de origens e experiências se reflete na cena, trazendo densidade e enraizamento em realidades sociais específicas. Seguir lapidando as construções subjetivas de cada artista criador pode dar ainda mais sentido às cenas e pode ajudar a construir ainda mais sentido nas relações apresentadas.

“Artigos de Luxo” é uma reflexão sobre as fissuras sociais que atravessam o cotidiano, especialmente em contextos periféricos e de vulnerabilidade. A dramaturgia se organiza de forma a partir de imagens que criam imagens poéticas capazes de abrir espaço para leituras críticas e diretas das relações sociais. É um trabalho que se destaca pela organização cênica, pela beleza de suas composições e pela força de seu coletivo criativo, revelando um potencial significativo de amadurecimento e continuidade dentro de sua pesquisa artística.

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“O Auto de Santa Isabel", é uma cena instigante que articula de forma inteligente o jogo cênico dos atores, a comicidade presente no texto de Rasec Rodrigues e uma direção bem estruturada, assinada pelo próprio criador em parceria com Gabriel Angel. A encenação se dá a partir de um universo cômico altamente expressivo, no qual os intérpretes exploram com precisão os desenhos de luz — por meio do uso de lanternas — e as possibilidades corporais para dar forma a uma narrativa atravessada pelo humor, sem abrir mão de uma reflexão crítica.

 

Partindo de um tema delicado — as relações entre lideranças religiosas, políticas e seus impactos na formação cultural e social — o espetáculo elabora uma crítica mediada por uma linguagem cênica que integra dança, música e marcações de coro. Esses elementos estruturam uma estética burlesca cuidadosamente construída, na qual a expressividade física dos personagens desempenham papel central na condução dramatúrgica.

O elenco formado por Carolina Silva, Nath Pires, Gabriel Angel, Diogo Luiz e Rasec Rodrigues — que também assina cenografia, figurino e trilha sonora — estabelece uma dinâmica potente em cena, sustentada por um diálogo preciso com a iluminação de Francisco Hashiguchi e pela maquiagem marcante concebida pelo coletivo. Juntos, esses elementos constroem um universo cênico em que comicidade, denúncia e teatralidade se entrelaçam de modo orgânico.

O resultado é uma obra que provoca o espectador a revisitar criticamente comportamentos, discursos e estruturas sociais, a partir de uma experiência estética viva e inventiva. O coletivo CAGE de São Gonçalo é criativo, tem muita e maturidade cênica, entregando um trabalho que deixa no público o desejo de assistir mais vezes e seguir acompanhando a pesquisa e trajetória do grupo, parabéns a toda equipe!!!



“Facada”, o espetáculo se estrutura a partir da autoficção como dispositivo dramatúrgico, utilizando-a para tensionar e desconstruir a própria cena. A partir da paródia de um acontecimento real, os quatro artistas em cena constroem uma narrativa fragmentada, que se abre em múltiplos parênteses cênicos, explorando formas e caricaturas na fabulação da história.

A encenação aposta em recursos expressivos como a mímica, a fisicalidade exagerada e a exploração sonora integrada às ações dos atores e até mesmo à relação com o público, instaurando uma dinâmica de jogo que rompe com a linearidade narrativa e convoca o espectador a participar desse universo em constante reinvenção.

Em cena, Luciano Fierro, Mau Moreira, Michelle Malc e Rodrigo Horta demonstram forte entrosamento e liberdade criativa, sustentando um jogo cênico vibrante, marcado pelo humor e pela irreverência. Destaca-se, nesse processo, o trabalho de Mau Moreira, que além de atuar, também assina a dramaturgia, articulando com precisão uma escrita cênica que potencializa o caráter cômico e a estrutura fragmentada da obra.

Outro elemento relevante é a camada sonora, cuidadosamente elaborada por Fernando Moreira, que amplia as atmosferas da cena e cria densidades rítmicas na encanação. A iluminação de Júlia Orlando também se destaca, ao instaurar recortes visuais que reforçam o tom estilizado e bufonesco do espetáculo.

O coletivo se sobressai pela consistência de sua pesquisa cênica e pela forma como articula atuação, dramaturgia e elementos técnicos em uma obra coesa e bem estruturada. A proposta de criação é destaque da crítica e evidencia um processo maduro de investigação artística, capaz de transformar o riso em dispositivo crítico e poético. Que o trabalho do grupo siga projetando a pesquisa marcante do grupo nos palcos alcançando mais e mais público pelo Brasil afora!


É Menino? A proposta de encenação com três atores chama atenção pela harmonia construída entre imagem, corpo, figurino e a utilização precisa dos acessórios cênicos. Há uma clareza e uma limpeza no desenho do espaço, estruturado a partir de cadeiras, muito bem articuladas pela cenografia de Lucas Rezende e pela iluminação de Caio César, compondo um ambiente cênico preciso e funcional. Soma-se a isso uma composição coreográfica sustentada pela repetição de gestos, que se desdobra como princípio dramatúrgico.

Ao tensionar discursos sobre masculinidade, a peça adentra um campo urgente e contemporâneo, problematizando construções sociais que naturalizam comportamentos e afetos ligados ao gênero. Nesse sentido, a encenação propõe uma reflexão sobre a possibilidade de desconstrução da masculinidade tóxica e sobre o abandono de padrões normativos que regulam o corpo, o desejo e a expressão afetiva.

A criação coletiva da Cia Expressarte é consistente tanto na direção quanto na escrita cênica compartilhada, evidenciando um processo de construção horizontal que se reflete diretamente na cena. Os intérpretes Nilton Maia, Lucas Rezende e Mário César sustentam com precisão esse pacto cênico, estabelecendo uma unidade que fortalece a dramaturgia e amplia sua densidade poética e política.

O resultado é uma cena que articula forma e conteúdo com equilíbrio, produzindo um trabalho de forte presença estética e de evidente engajamento crítico, sem abrir mão da delicadeza na composição das imagens e na condução do jogo teatral. É um lindo e tocante trabalho!!!



CRÍTICAS TEATRAIS - DANI CÂMARA - 29/05/2026

 



Crítica por Dani Câmara 

Rio de Janeiro, Marechal Hermes | Dia 29 de Maio de 2025

 


Antígona, propõe uma releitura contemporânea da tragédia clássica atravessada por uma experiência profundamente brasileira, marcada sobretudo pela vivência negra e periférica. Mais do que atualizar o mito, a encenação o reinscreve como ferramenta política no presente, onde Renata Tavares e Thiago Ribeiro acertam ao construir uma Antígona que reivindica justiça a partir de referências concretas do cotidiano das favelas, estabelecendo um diálogo direto com o movimento de Justiça guiado por mães de vítimas dos assassinatos em favela. E a partir de uma encenação estruturada por escolhas precisas e concisas entre as cenas, fortalece a leitura simbólica e a força dramatúrgica do espetáculo.

O figurino e a maquiagem de Nega Lu incorporam elementos como Kenner, boné e camisa de time, deslocando a tragédia grega para um universo urbano sem perder sua dimensão ritual. A presença da quartinha e da espada de São Jorge, amplia as camadas de significação da cena, ativando no espaço cênico uma relação viva entre ancestralidade, resistência e memória.

A interpretação de Nega Lu como Antígona sustenta a urgência da personagem, articulando força e astúcia cênica em uma presença que ultrapassa a condição de símbolo e se afirma como corpo atravessado por história e território, intensificando a busca da encenação por justiça e potência política. Em contraponto, a atuação de Bruno Martins amplia as tensões do jogo cênico ao instaurar uma presença que dialoga com os conflitos da cena, tensionando os limites entre rigidez e escuta dramatúrgica.

No campo da visualidade, a cenografia de Rafael Rogues, em diálogo com a concepção de iluminação de Lucas da Silva, organiza o espaço a partir de um círculo central que funciona como dispositivo cênico e núcleo de relações em constante atrito. Essa disposição espacial fortalece o vínculo entre intérpretes e elementos da cena, instaurando um ambiente de permanente tensão e circulação de sentidos.

Ainda que a obra revele um cuidado consistente na construção de seus signos, há momentos em que tais elementos poderiam ser mais explorados na ação dos atores. Da mesma forma, alguns diálogos entre Antígona e Creonte poderiam ganhar maior concisão, ampliando sua força dramática e aproximando ainda mais o clássico de sua leitura contemporânea e do público.

Antígona traz uma proposta cênica relevante na cena contemporanea, que desloca uma das tragédias fundadoras do teatro ocidental para um território negro e brasileiro. A encenação desperta o desejo de assistir e revisitar a cena, pela força das imagens, pela potência política do discurso e pela maneira como trabalha o mito no presente, mantendo-o vivo, inquieto e atual. É uma cena que emociona e vale e merece seguir circulando pelos palcos brasileiros. Vida longa!

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“Torra Média”, se inscreve no campo das poéticas contemporâneas do corpo, onde a cena se organiza como um espaço de fricção entre gesto, ritmo e sonoridade. A encenação é sensível, junto do texto e da trilha sonora, também concebidos por Vinícius S., que operam como princípio da ação, criando tensões contínuas com os corpos em cena e convocando o espectador a uma experiência de escuta visual e corporal.

A dramaturgia se desdobra sem linearidade textual, mas com forte investimento na arquitetura de ações. O gesto, explorado até o limiar da exaustão, emerge, aproximando a encenação de matrizes pós-dramáticas em que a repetição se configura, atribuindo ainda mais sentido à cena. Nesse campo, a presença de ecos da dança-teatro de Pina Bausch pode ser percebida não só pela citação direta, mas como filiação estética: um modo de organizar o corpo em estado de vulnerabilidade e estranhamento.

A cenografia e o figurino de Ricardo Melchíades participam ativamente dessa tessitura, não apenas como ambientação, mas como corpos expandidos da própria dramaturgia, compondo uma visualidade que vibra em consonância com a trilha sonora e com as modulações luminosas de Rafa Domi. A iluminação, nesse contexto, opera como escritura do espaço, desenhando zonas de presença e suspensão certeiras.

No campo performativo, destacam-se Rayane Souza, no papel de Ana, e Ricardo Melchíades, protagonistas da obra, cuja atuação se ancora em uma ética da presença física e leveza. Seus corpos se lançam em uma partitura de ações que articula repetição e precisão, construindo uma corporalidade que parece tensionar os próprios limites. Há, nesse sentido, uma escrita do corpo que se aproxima de uma poética da exaustão como método de composição.

A experiência cênica  é forte e sensível, e produz mundos por meio da articulação entre som, corpo e luz. Trata-se de uma obra que convoca o espectador a um regime de atenção expandida, no qual a percepção é deslocada do habitual para um campo de possibilidades produtivas.

Entretanto, essa mesma radicalidade abre uma questão crítica pertinente: em que medida tal densidade poética encontra ressonância em públicos mais amplos, especialmente em contextos de formação de plateia fora dos circuitos hegemônicos? A potência estética do trabalho reside justamente nessa tensão entre experimentação, comunicação e abertura de sentidos. É nesse intervalo que a cena  se afirma como obra viva — como pergunta em movimento.

A encenação tem uma proposição estética consistente, que investe na materialidade do corpo e na musicalidade da cena como modos de pensamento, reafirmando o teatro como espaço de experimentação sensível e de reinvenção do olhar. Parabéns a toda equipe!

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“A mala de Rubens” da Trupe Silvas de Teatro, é uma encenação forte e com densidade sensorial, na qual corpo, voz e imagem se articulam para construir uma experiência que ultrapassa a narrativa linear e se instala no campo do acontecimento. É um trabalho que aposta na intensidade física, emocional e social como eixos estruturantes de sua poética, produzindo uma cena que vibra entre o sensível e o simbólico, entre a materialidade do gesto e a elaboração estética da memória.

A encenação, assinada por Madu Emmerick — que também assume a dramaturgia —, revela um olhar atento para a construção de um teatro de coro, no qual a potência do coletivo não se dissolve em unidades individuais, mas se expande na relação entre os corpos. O grupo em cena demonstra notável disponibilidade física e vocal, operando com precisão em um campo híbrido de linguagens: canto, execução musical ao vivo, dança e atuação. Essa escolha estética reforça a ideia de uma cena expandida, em que a teatralidade se constrói pela sobreposição de camadas expressivas.

O elenco composto por João Vitor Ferraz, Paulo Bikila, Beatriz Genuncio, Jhessy S., Amanda Lívia, Rapha Jobim e Francisca Pereira sustenta a cena com vigor e escuta coletiva. Há uma coesão evidente no modo como o elenco ocupa o espaço com jogo, com a composição em grupo e a circulação de energia entre os corpos. As performances  criam uma paisagem cênica compartilhada, na qual cada gesto reverbera no conjunto. É muito bonito assistir!

No plano visual e material, a cenografia de Rapha Jobim e o figurino Amanda Lívia os dois desenvolvido em parceria com Madu contribuem para a exploração de um universo imagético em diálogo direto com a dramaturgia corporal do espetáculo. A maquiagem, criada pelo próprio coletivo, reforça o sensível da montagem, enquanto a trilha sonora de Juliane Andrade e a iluminação de Rafa Domi instauram uma atmosfera que oscila entre o lúdico e o inquietante, ampliando a percepção do espectador e tensionando os sentidos da cena.

Destaca-se ainda a inserção, ao final da encenação, de uma atriz mais experiente, cuja presença introduz uma camada geracional significativa ao espetáculo. Esse gesto amplia o horizonte poético da obra ao tensionar diferentes temporalidades em cena, sugerindo uma reflexão sobre memória, continuidade e transmissão. Trata-se de uma aparição que desloca a percepção do público e adiciona espessura simbólica ao percurso dramatúrgico.

A força do trabalho é a consistência da pesquisa da Trupe Silvas de Teatro, de São Gonçalo, que vem consolidando uma identidade artística própria na cena contemporânea. O grupo demonstra maturidade na articulação entre diferentes linguagens e uma marcante teatralidade que nasce do corpo em ação, da coletividade e da invenção contínua.

Em A mala de Rubens, o que se vê é construção de um território poético em permanente deslocamento, onde o teatro se afirma como experiência compartilhada, sensível e viva. Um belo, intenso, pulsante, marcante e potente projeto em estado de presença.

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“O Último Ato” traz uma direção que acerta ao afirmar a potência do artista como gesto de manifesto poético-político, articulando essa dimensão a uma crítica à ditadura militar. A partir do jogo estabelecido entre os atores, uma cena de forte apelo estético, cuidadosamente composta e visualmente envolvente é construída.

Um dos pontos altos do espetáculo é a maquiagem de Larine Savinon, que adorna, caracteriza e estrutura visualmente os corpos em cena. Em diálogo com o figurino e com a parceria de Denair, amplia um universo de possibilidades expressivas, no qual cada camada visual parece operar como extensão dramatúrgica. A atuação, texto e direção partem da própria artista, o que confere à obra uma unidade autoral evidente e marcante.

Destaca-se ainda a atuação de Daniel Mota, que contribui expressivamente na construção do campo sensível da cena. Em articulação com a iluminação criativa de Duda Fulco, o espetáculo ganha espessura poética, expandindo suas atmosferas e reforçando a dimensão lírica que o atravessa.

Se por um lado a encenação apresenta uma visualidade potente e bem resolvida, por outro, a cenografia, muito bela, parece pedir maior depuração em diálogo com a encenação. Um desenho mais enxuto poderia preservar apenas o essencial para sustentar a atmosfera lírica da proposta, potencializando sua força. O texto também se beneficiaria de um refinamento, especialmente no que diz respeito a evidenciar a comicidade que atravessa essa tragédia contemporânea. Há um campo fértil entre humor e denúncia que pode ser mais explorado, ampliando a construção dos personagens e aprofundando o universo em que estão inseridos.

A trilha sonora de Cadu Werly e Wallace Luz sustenta com sensibilidade o território lúdico da cena, funcionando como um eixo importante da composição. Um ajuste nos volumes pode fortalecer ainda mais a linguagem dramática, artística e política da obra, que já se afirma com magia e encanto nos palcos! Continuem pesquisando e brilhando em cena!!!

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