Crítica às performances teatrais por Dani Câmara
Flora e o Passarinho
O público é contemplado com um espetáculo harmônico, onde temas tão necessários como: cuidado com a natureza e respeito aos mais velhos, são desenvolvidos com maestria no texto dramático, que através da escolha da narrativa, da construção dos diálogos e da sequência de ações, traz identificação e reflexão ao espectador. Os personagens são muito bem construídos pelos atores e igualmente bem traduzidos através dos outros elementos cênicos: figurino e máscaras. Figurino - uso inteligente e funcional de tecidos com movimento, utensílios e acessórios. Máscaras - confeccionadas com material orgânico, malha de coqueiro, e seu uso pontual na composição visual das cenas.
Outro ponto alto é a música e o uso de bonecos. A música ao vivo executada pelo violonista do grupo cria sonoplastia e estímulo sonoro a partir de ações e acontecimentos cênicos do momento, e também cria camadas sensíveis com canções muito bem executadas pelos atores que são instrumentistas no espetáculo. Um espetáculo completo com a manipulação de bonecos de vara, que são os personagens principais da trama, e capturam o público com ludicidade e domínio técnico. Todo o conjunto criativo aponta para um teatro que é, ao mesmo tempo, educativo e mágico, refletindo o cuidado com o meio ambiente e com as relações humanas de uma maneira divertida e significativa.
Artistas da Terra (EGITO)
A troca entre as bailarinas e a plateia, especialmente nos momentos de interação direta, é um dos pontos altos da performance. As artistas conseguem envolver o público com seus gestos e expressões entregando um espetáculo criativo e cheio de magia. O cenário acaba ficando secundário, a sugestão que pode contribuir com a experiência é a utilização mais criativa dos elementos cênicos para ampliar ainda mais a imersão do público.
Em resumo a performance muito é rica pela execução, e além de nos apresentar outro universo a partir do ritmo, também cria um momento atemporal, um intervalo da aceleração do cotidiano, no qual o público é seduzido pela suavidade e sensibilidade das bailarinas, que criam um espaço de fenda do tempo, onde o gesto e a presença se tornam os principais veículos da linda experiência.
Histórias de Princesas Guerreiras
A composição dos quadros cênicos é outro ponto forte da peça, criando uma dinâmica que integra o público de forma significativa no desenrolar da história. A interatividade proporcionada pelo grupo estimula uma co-criação da narrativa, fazendo com que cada espectador se sinta parte do processo. Esse envolvimento direto transforma a dramaturgia em uma experiência coletiva, onde a plateia se torna co-autora da história, refletindo sobre os temas apresentados e se conectando de forma pessoal com os personagens.
Uma sugestão para tornar o espetáculo ainda mais impactante seria explorar de maneira mais integrada a execução musical. A música, ao ser mais presente e harmônica com os outros elementos cênicos, poderia acrescentar camadas emocionais, ampliando o poder de conexão com o público e enriquecendo ainda mais a atmosfera do espetáculo.
Outro ponto de destaque é a integração do grupo entre si e, entre o ambiente com sua habilidade de adaptação, a troca de personagens entre as atrizes e o uso de bonecos adicionam um toque de ludicidade e diversão, ampliando o apelo da peça para todas as idades, proporcionando momentos de leveza que equilibram a profundidade da narrativa. O espectáculo é, sem dúvida, uma experiência cativante, brincante e lúdica que vale a pena ser vivenciada.
Circuito Carioca de Arte de Rua
O Circuito de Arte Carioca de Rua é uma iniciativa de grande importância social, pois é uma plataforma para que outros artistas realizem sua arte pública. E ao descentralizar as apresentações, o grupo oferece a oportunidade para que um público que poderia estar à margem das ofertas culturais tenha acesso a cultura. Além disso, a inclusão de recursos de acessibilidade, como tradução em Libras, cadeiras adaptadas para obesos, uma estrutura de som apropriada, e a presença de equipe de apoio logístico, assegura que todos possam vivenciar a experiência de maneira respeitosa e plena, independentemente das suas necessidades.
"Promover teatro onde o povo está" não é apenas um slogan, mas uma ação concreta de inclusão e transformação cultural. O trabalho do Grupo As Lucianas, através de um núcleo central de mulheres, não só enriquece o cenário teatral, mas também contribui significativamente para a criação de uma sociedade mais acessível e igualitária.
Crítica Teatral Dani Câmara @souldanicamara