CONTATOS:

Se você quiser contratar, dar sugestões, enviar fotos e comentários para o Grupo Teatral Aslucianas, envie um e-mail para gtaslucianas@gmail.com PERFIL INSTAGRAM @GTASLUCIANAS

quinta-feira, 21 de agosto de 2025

CRITICA TEATRAL: LEANDRO PORTO FALA SOBRE O CIRCUITO DE AGOSTO

 

O último sábado, dia 16 de agosto de 2025, trouxe à Praça da Vitória, em Nova Iguaçu, uma noite repleta de encantamento e arte de rua, pelo Circuito Carioca de Arte de Rua. O público teve a oportunidade de assistir a três espetáculos distintos, cada um explorando a narrativa, a dança e a música de maneira única, evidenciando a diversidade e a riqueza da produção cultural local e nacional.


O espetáculo de abertura, “Quem Conta um Conto Aumenta um Ponto!”, trouxe ao palco da rua a magia dos contos populares brasileiros. Baseada na tradição oral, a narrativa se desenvolve em uma festa do pijama, onde crianças-narradoras recontam histórias do folclore nacional.

A Cia Villelarte demonstrou grande versatilidade em seus atores, que transitaram com leveza entre personagens e situações, mantendo o público envolvido com humor e criatividade.

A adaptação do espetáculo de palco para a rua foi feita de forma inteligente e lúdica, aproveitando o espaço aberto da praça sem perder o dinamismo e a expressividade do texto. Os recursos cênicos, embora simplificados, foram usados com criatividade, mantendo o encanto da narrativa e permitindo uma proximidade maior com a plateia. É relevante destacar o valor de um grupo local de Nova Iguaçu se apresentar em sua própria cidade, fortalecendo a cultura regional e a conexão entre artistas e comunidade. A experiência, divertida e de alta qualidade, deixou claro que a tradição oral continua viva e pulsante quando conduzida por artistas comprometidos.

Em seguida, o público foi transportado para um universo mágico com “Encontro das Sereias”, performance do Grupo Kianda Cia Multicultural. O encontro entre Kianda, a sereia preta de Angola, e Iara, a sereia indígena da Amazônia, foi representado por meio de dança, canto e percussão, criando um espetáculo musicalmente envolvente.

A performance destacou a importância de resgatar e valorizar os povos ancestrais e originários, usando a dança do carimbó como ponte cultural entre África e Brasil. A força poética do espetáculo aliou-se à consciência ambiental, convidando o público à reflexão sobre a preservação das águas e da natureza. A fluidez dos movimentos, a sincronização musical e a expressão corporal da artista demonstraram sensibilidade estética, resultando em um espetáculo musicalmente interessante.


O fechamento da noite ficou por conta de “Amaré – Contos do Mar”, do Grupo Aslucianas, que trouxe uma abordagem poética e musical para histórias ligadas ao mar. Com base nas obras de Rubem Braga, Hans Christian Andersen e nas canções praieiras de Dorival Caymmi, o espetáculo combinou ludicidade e consciência ambiental, apresentando temas de sustentabilidade com leveza e sensibilidade.

A trilha sonora original destacou-se como um dos pontos altos, tornando-se marcante e envolvente, permanecendo na memória do público mesmo após o término da apresentação. A combinação de música, narrativa e contação criou uma atmosfera acolhedora e encantadora, reforçando a capacidade do teatro de rua de dialogar com públicos de todas as idades. A leveza do espetáculo, aliada à relevância da mensagem ambiental, evidenciou a força da poesia e da música como ferramentas educativas e sensíveis.


O Circuito Carioca de Arte de Rua na Praça da Vitória mostrou-se mais uma vez como espaço de valorização da cultura local e do teatro de rua. Cada espetáculo trouxe seu universo próprio, seja pelo humor e lúdico da Cia Villelarte, pela beleza e ancestralidade do Grupo Kianda, ou pela poesia musical do Grupo Aslucianas. A diversidade artística, a qualidade das performances e o envolvimento do público reafirmam a importância de investir na arte local e na democratização do acesso à cultura, especialmente em espaços abertos e acessíveis como a Praça da Vitória.



 

Leandro Porto

Mediador Cultural

@arteepalcoproducoes


Leandro Porto  é a
tor, diretor e produtor, cuja formação em Artes Cênicas e Pós-Graduação em Gestão e Produção Cultural proporcionaram uma base sólida para sua carreira multifacetada nas artes. Com uma paixão evidente por seu ofício, Leandro atua não apenas como intérprete, mas também como estrategista na gestão cultural, tem experiência em festivais de teatro regionais, nacionais e internacionais. Faz parte do Corpo Pedagógico de Juri dos Festei, Festival Nacional de Ibiúna desde a primeira edição e possuí experiência internacional em Festivais de teatro, tendo feito residência no Festival de Teatro de Tacna, no Peru. Possui registro e DRT como Ator, Diretor de Produção e Diretor Teatral.

segunda-feira, 21 de julho de 2025

CRITICA TEATRAL: JUKA GOULART FALA SOBRE A EDIÇÃO DE JULHO DO CIRCUITO CARIOCA DE ARTE DE RUA

 

Circuito Carioca de Teatro de Rua – Espetáculos que encantam e convidam a sonhar

A Domadora de Bicicletas – Marmotagem e Cia.




Com ternura e humor, a palhaça Marmota (Tina Carvalho) nos leva de volta aos tempos mágicos dos circos. Em uma sequência leve e divertida, ela conquista o público — especialmente as crianças — com sua graça e habilidade. O visual do espetáculo é encantador: figurinos criativos e um cenário construído com elementos da bicicleta enriquecem a cena. A luz natural do dia pedia uma maquiagem mais marcante para destacar ainda mais os detalhes. A bicicleta, anunciada como protagonista, poderia ter ganhado mais espaço na narrativa. Mesmo assim, é um espetáculo doce e envolvente que provoca sorrisos e desperta memórias afetivas.





O Malandro das Cores – Grupo Origens


Cheio de brilho e gingado, "O Malandro das Cores" é pura celebração! Marcos Bandeira desfila talento com cada dança e gesto, narrando a mistura de culturas que forma o Brasil. O ponto alto? A emocionante performance de Marinheiro Só, eternizada por Clementina de Jesus, cantada em coro pela plateia. É a prova viva de que arte une todas as idades. Os figurinos são luxuosos e vibrantes, embora uma maquiagem mais elaborada pudesse completar o visual. Um espetáculo belíssimo — pena que tão breve.






Contarolando Luiz Gonzaga – Aslucianas


Recontar a trajetória de Luiz Gonzaga nunca é demais. Em "Contarolando Luiz Gonzaga", o teatro mostra sua força: em menos de uma hora, somos levados por músicas, figurinos e histórias que retratam a alma do povo nordestino — guerreiro, alegre e resistente. A encenação mergulha com sensibilidade na vida do Rei do Baião, embalada por canções inesquecíveis e visuais encantadores. É um convite à alegria e ao orgulho de nossa cultura.


O Circuito Carioca de Arte de Rua, realizado em Macaé, é mais que um festival — é um abraço da arte na cidade. Uma experiência imperdível para quem deseja se emocionar, sorrir e se conectar com a potência criativa dos artistas brasileiros.

 




 Crítica Teatral:  Juka Goulart @jukagoulart

Juka Goulart é ator, produtor, dramaturgo, roteirista, figurinista e maquiador, nascido na cidade de Rio Bonito. Iniciou a carreira artística fazendo peças no Colégio Cenecista Manuel Duarte (atualmente Colégio Cenecista Monsenhor Antônio de Souza Gens) onde estudava. Mas logo depois partiu para voos maiores, foi fazer aulas de interpretação com Marcelo Caridad. A partir daí, vendo que em Rio Bonito não supria suas necessidades, procurou se formar em renomadas escolas de teatro do país, tais como: O Tablado, CAL (Casa de Artes Laranjeiras) e Escola Técnica de Teatro Martins Penna, mas nunca abandona sua cidade natal. É a partir daí que assume a direção do SoMu D Riba, o Grupo Theatral da Sociedáde Musicál e Dramática Rio-bonitènse.



domingo, 22 de junho de 2025

CRÍTICA TEATRAL: RONNY PIRES FALA SOBRE O CIRCUITO DE JUNHO - EDIÇÃO DOS NAMORADOS

 Crítica – “Velho Circo, Novo Mundo” (Palhastônicos)



Com uma cenografia elegante em tons neutros e figurinos que dialogam com delicadeza, o espetáculo Velho Circo, Novo Mundo surpreende pela beleza visual e pela precisão cênica. Mas é na musicalidade que ele realmente brilha: composições envolventes, executadas com domínio e sensibilidade, fazem da trilha sonora uma protagonista silenciosa da narrativa.


O texto, recheado de ditados populares e referências à literatura brasileira, conecta humor e cultura de forma inteligente. O jogo entre os artistas é afinado, vivo, e a relação com o público — especialmente na rua — é leve, calorosa e cheia de escuta.


Um espetáculo sensível, divertido e tecnicamente muito bem construído. Vale (muito) ser visto.




🎤 Crítica – “Amor e Rima” (Nego Zú)



Nego Zú entrega em Amor e Rima muito mais do que um show de rap: entrega presença, verdade e afeto. O espetáculo é um encontro entre batida e sentimento, onde a poesia urbana atravessa o ritmo com delicadeza e força.


Cantando o amor e o pertencimento a partir da vivência preta periférica, ele constrói pontes entre a potência da arte e as urgências sociais do nosso tempo. As letras falam de ascensão, de resistência, de autoestima — sem romantizar a dor, mas com honestidade e esperança.


Na praça, seu carisma estabelece uma conexão imediata com o público. É arte que acolhe, que denuncia, que pulsa no coletivo. Amor e Rima emociona, eleva e convida à escuta. Um show que nos faz lembrar que amar, rimar e resistir seguem sendo atos revolucionários.


🎭 Crítica – “O Folclore do Amor” (Grupo Aslucianas)



O Folclore do Amor é um espetáculo encantador que mistura humor, cultura popular e afeto com leveza e poesia. A história de Literário e Cordelina — um casal em pé de guerra tentando entender o que é o amor — diverte e emociona com um texto repleto de referências à nossa literatura, à história do Brasil e à música popular.


A trilha sonora, recheada de clássicos da MPB e do cinema, embala a narrativa com charme e nostalgia. O elenco tem carisma, ritmo e entrega um trabalho cheio de vitalidade, especialmente em espaços públicos, onde o grupo brilha na proximidade com o público.


A única ressalva fica para a parte técnica: aspectos de som e microfonação ainda podem ser mais bem ajustados para valorizar toda a potência da encenação. Mas isso não compromete o encanto geral da peça, que é divertida, brasileira e apaixonante.


            Crítica Teatral   Ronny Pires     @ronnypiress



Ator, diretor e professor. Graduado em Licenciatura em Teatro pelo Universidade Estácio de Sá (2011), pós graduado em Psicopedagogia Institucional, Gestão Educacional pela FACI (2015) e mestrando em Ensino das Artes Cênicas pela UNIRIO. Atua desde 1999 no Grupo Gota, Pó e Poeira, renomado grupo do Espírito Santo. Onde atuou em diversas peças, sendo indicado ao prêmio de melhor ator coadjuvante no Festival de teatro da Tv Gazeta em 2000 com o espetáculo A Lenda do Talismã. Em 2018, recebe o prêmio de melhor ator coadjuvante no Festa - Festival de teatro de Araçuaí - MG com o espetáculo A Absurda Comédia de Duas Vidas. Em 2022 vira cofundador da Cia Ayra-art e estreia seu primeiro monólogo Eu, preto! Em 2023, recebe o prêmio de melhor ator coadjuvante no Fetuba - Festival de teatro de Ubá - MG com o espetáculo Os Sacrilégios do Amor. Em 2024, estreia como diretor do espetáculo Calunga, a princesa que virou boneca. Pela Cia Mais um ponto, mais um conto e foi premiado com melhor direção no Festival de Guaçui.


Este projeto tem o patrocínio da Secretaria Especial de Integração Metropolina - Seim através do Programa Integra Rio

segunda-feira, 2 de junho de 2025

CRITICA TEATRAL: DANI CAMARA FALA SOBRE A EDIÇÃO DE MAIO DO CIRCUITO CARIOCA

 Rio de Janeiro 18 de maio de 2025

Mentirosos

A Cia Teatro Porão demonstra, com propriedade, o talento e a experiência adquiridos ao longo de seus 25 anos de atuação no teatro de rua. Desde o início do espetáculo, vemos o cuidado com a dramaturgia cênica e com o repertório coletivo. O uso de ditados e frases populares na composição dramatúrgica aproxima o espectador do universo apresentado, criando uma atmosfera de familiaridade e participação. E os atores mostram desenvoltura e domínio técnico ao interpretar diversos personagens, transitando entre eles com escolhas simples, porém muito bem executadas, que mantêm a atenção e o envolvimento de todos presentes.

A interação com a plateia se destaca também pela espontaneidade e boa condução. Vemos uma equipe habilidosa, aproveitando a dispersão natural da rua para transformar o espaço em um palco vivo, onde atores e público interagem de forma espontânea e envolvente. Um espectador foi convidado a participar e permaneceu por um longo tempo em cena, com desenvoltura. Esse momento, longe de quebrar o ritmo, ou de ser apenas um recurso cômico, fortaleceu a proposta do espetáculo e criou um elo com o espectador, evidenciando generosidade, cumplicidade e escuta cênica dos atores. 

A trilha sonora, muito bem escolhida, por sua vez, em todos os momentos funciona como um fio condutor que acentua emoções nos momentos certos, transformando o ritual de rua em uma experiência sensorial completa. Como sugestão, seria interessante dedicar atenção à execução musical ao longo de toda a apresentação, para que a contundência seja potencializada ainda mais do início ao fim. 

Outro destaque fica por conta dos figurinos e acessórios, confeccionados manualmente pela própria companhia, que trazem delicadeza e sutileza às peças, aproximando o público das memórias coletivas de afeto. Esse cuidado com os detalhes enriquece a experiência e reforça a conexão geral em todo espetáculo. 

A combinação de todos elementos citados faz da peça uma celebração do teatro de rua, que une técnica e criatividade de maneira harmoniosa e impactante. Saímos com gostinho de “Quero mais”!!! 




Pout Porri Canções do Bituca


Felipe Miranda e Marcus Garrett proporcionaram uma apresentação encantadora e emocionante em homenagem ao mestre Milton Nascimento. Com muita sensibilidade, eles conduziram o público por uma jornada de memórias afetivas, atravessando gerações e envolvendo pessoas de todas as idades presentes na ocasião.

A voz de Felipe, com seu timbre firme e aveludado, marcou a apresentação de maneira especial. Ele não busca imitar Milton, mas imprime sua própria identidade interpretativa, o que torna cada canção ainda mais autêntica. Sua entrega desperta lembranças, sensações e conexões profundas com o público.

Ao seu lado, Marcus Garrett, com sua execução delicada e precisa no violão, acrescenta harmonia e brilho à performance, sustentando com elegância a atmosfera lírica criada por ambos.

O resultado é um encontro respeitoso com o legado de Milton, aliado à liberdade artística de dois talentosos intérpretes que encontram um equilíbrio entre reverência e inovação. Felipe Miranda e Marcus Garrett nos oferecem uma homenagem carregada de beleza e sinceridade, à altura do homenageado.





O Coco que Vira Cocada, Vira Rosa

No espetáculo, As Panambis, se destacam por sua proposta calorosa de celebrar a cultura popular nordestina por meio da música, da dança e da menção à culinária — uma experiência sensorial que, sem dúvida, conquista o público. A escolha de canções, os momentos de dança e a interação direta com a plateia são pontos fortes que tornam a montagem viva, festiva e acolhedora.

As atrizes, com muita experiência de cena, são um dos grandes trunfos da peça. Elas conduzem a narrativa com energia, presença e generosidade, sabendo envolver o público com carisma e ritmo. O espetáculo acerta ao criar momentos de partilha e participação espontânea, fazendo com que o público se sinta incluído e tocado pela atmosfera proposta.

Ao mesmo tempo, é importante reconhecer que, ao explorar uma cultura tão rica e diversa como a do Nordeste, o cuidado na representação faz toda a diferença. Reforço a importância em aprofundar ainda mais a pesquisa sobre gestualidades, sotaques e elementos culturais, evitando possíveis estereótipos e buscando refletir com mais autenticidade toda a diversidade que caracteriza essa região e essa cultura tão especial. O teatro desempenha um papel fundamental nesse processo de valorização, e a equipe já demonstra um talento evidente e uma base sólida para evoluir com pequenas revisões uma escuta mais atenta às nuances culturais. Dessa forma, a homenagem à cultura nordestina pode alcançar um nível maior de sensibilidade e respeito, sem perder a leveza, alegria e o entusiasmo, que existe no espetáculo ganhando cada vez mais verdade.

Parabéns à equipe pelo trabalho dedicado e pela proposta que, sem dúvida, enriquece o cenário teatral e cultural. É uma experiência que certamente deixa uma marca positiva e merece ser celebrada!



Crítica Teatral    Dani Câmara         @souldanicamara

Cantora, compositora, atriz, cidade do Rio de Janeiro e em São Paulo. Formada em Arte Cênicas/Direção Teatral na UFRJ, tem em sua trajetória prêmios e apresentações internacionais entre Argentina, Espanha e Portugal. Tem o Prêmio de Melhor Atriz Juri Popular no Cine Santo André SP com o Longa 'Solanas Explicado as crianças 2024, Melhor Cena e Melhor atuação Festival VR Cena 2021 com ' CORPA de Mula". Indicação melhor atriz coadjuvante Premio Musical Rio 2022 com o espetáculo musical 'Ceu Estrelado', Prêmio melhor cena pela direção do projeto "Disfarce" no Festival Internacional de Guaranésia MG 2021, Prêmio Música Sesi 2023 com "Dengo Preto", Prêmio Festival Internacional Red Bull Music, entre outros. Atualmente é apresentadora do Programa "Papo na Laje" - transmitido na TVT de SP/ Canal Comunitário do RJ e YouTube), é atriz e idealizadora do projeto teatral "Se Quiser Falar de Amor", é gestora da Empresa Cultural Corpa Negrura e desenvolve seu projeto autoral na cena contemporânea e nas plataformas de música e vídeo.


quinta-feira, 1 de maio de 2025

CRITICA TEATRAL: ANILIA FRANCISCA FALA SOBRE A EDIÇÃO DE PÁSCOA DO CIRCUITO CARIOCA DE ARTES DE RUA

 Histórias Cantadas e Contadas


Histórias cantadas de contadas, do grupo Cantando para Contar de São Gonçalo, Rio de Janeiro, traz uma intervenção artística bem dinâmica e bem alegre. A atriz Shanna Magalhães conduz de forma hábil, várias histórias infantis muitas delas na cultura popular, costuradas por cantigas de roda, trava línguas e brincadeiras cantadas.

A banda é extremamente sintonizada e a música ao vivo faz toda diferença - pois músicos em vários momentos também intervém no espetáculo e contribuem na narrativa e em diversas histórias chamando plateia para brincar junto. Voltado para o público infantil o espetáculo não deixa a desejar colocando todo mundo pra dançar e cantar, inclusive propondo coreografias.


Adultos também se divertem ouvindo tradicionais canções que também fizeram parte do repertório de suas infâncias. Embora seja um solo com banda, a peça -show não perde o ritmo e não deixa as crianças sentadas em nenhum momento, provocando momentos únicos de dança coletiva e trocas que são tão necessárias nesses tempos que clamam a interatividade.



O grande Agulha, único palhaço que vira unicórnio

Essa performance de palhaçaria que pode ser adaptável para qualquer espaço cênico consegue prender a plateia até o fim do número. Agulha vem com uma mala (infelizmente não adereçada como seu dono), anunciando uma grande façanha a qual ensaiou por muitos anos: virar unicórnio. É uma pena que não saíram mais surpresas de dentro dessa mala, que criou uma expectativa a respeito das inúmeros potenciais prometidos. Apesar disso, o palhaço compensa o público com piadas simpáticas e muita interação. Sinto que faltou musicalidade, e porque não, algumas outras Gags que pudessem abrilhantar melhor as diversas habilidades insuspeitadas do "nada modesto"Agulha.

O performer é bastante experiente, tem escuta aguçada e percebe público, troca com ele, algo bem raro de acontecer. É uma pena que o número foi muito rápido e a culminância pela qual todos esperávamos ansiosos, infelizmente, aconteceu sem a devida preparação para um ápice, um "grand finale", ou seja, um step by step - talvez seja, por causa disso, que muitos dos espectadores não perceberam que o número havia finalizado. De qualquer forma, como próprio palhaço disse, 'se por alguns poucos minutos conseguimos esquecer nossas vidas complexas, e destinamos um sorriso sincero nessa cena ' tudo já estaria valendo a pena. E valeu.



Histórias de Coelho

O grupo teatral ASLUCIANAS do Rio de Janeiro, traz uma proposta criativa quando usa a figura do coelho para interligar três histórias da literatura mundial. Algumas das histórias são bem conhecidas, como A Lebre e a Tartaruga, entretanto outras são provavelmente desconhecidas para a maioria do grande público como o conto de Clarice Lispector: O mistério do coelho pensante. O grupo apresenta um figurino interessante que chama bastante atenção da criançada, já que combina com muitas peças dos adereços que eles trazem, reportando ao mapa-mundi com ilustrações divertidas.


Há uma tentativa de introduzir músicas populares e uma trilha que conduz as histórias, entretanto só violão como instrumento harmônico e as vozes dos atores ainda não conseguem dar o colorido necessário para estimular um coro do público. É possível que a escolha do repertório devesse estar mais dentro do universo infantil, já que ao que parece, apesar de ser uma peça de rua, o público alvo são as crianças, ocorre que, isso nem sempre ocorre na montagem.

A peça é divertida, as atrizes são versáteis e transitam por diversas personagens e linguagens - inclusive o teatro de bonecos, o que prende e conquista uma plateia de todas as idades - mas o ator/músico fica bem sobrecarregado na missão de tocar e interpretar, afetando as multitarefas que são executadas, quase nem sempre de forma eficaz.

Por ser uma peça de rua, a escolha de fazer três historias curtas é feliz. Pois nem sempre o público consegue ver todas elas, e mesmo pegando uma ou outra, já se sente contemplado, pois as narrativas se finalizam e funcionam de forma independente.

Entretanto a montagem que ultrapassa 50 minutos torna-se longa para a plataforma que foi apresentada, pois com ritmos e abordagens bem distintas, dispersam a plateia, que muitas vezes não encontra a conexão entre as narrativas e desconecta-se.

O que é mais atraente no espetáculo são as temáticas tocantes e nobres que são tão necessárias - a solidariedade, o perdão, o respeito, a busca por um mundo melhor, a valorização da ancestralidade, entre outros. Princípios tão relevantes, que aqui são resgatados e nos comovem em muitos momentos. Não sao apenas histórias de coelho, são histórias de gente, para gente, sobretudo.



Por Anilia Francisca

29 de abril de 2025

Formada em Artes Cênicas pela UNIRIO (2004) e em direito pela SUESC (2001), é pós graduada em Arteterapia e Educação na UCAM, MESTRADO PROFISSIONAL em Teatro pela UNIRIO (2016). É DOUTORA em ARTES DA CENA na UFRJ (2024). 
Encenadora e dramaturga, já escreveu mais de 20 peças. Diretora com diversos prêmios em festivais nacionais, é fundadora e dirige há 25 anos o GENE INSANNO CIA DE TEATRO. É uma das produtoras do Ponto de Cultura eMGI - Ponto Multicultural Gene Insanno (Araruama/RJ). Professora de artes cênicas do RJ há 16 anos. Faz pesquisas sobre multifoco, teatro de autoficcão, ator criador, dramaturgias e teatro pós-dramático. Já dirigiu 5 curtas metragens, fez preparação de elenco e edição de diversos filmes, produziu e criou mais de 30 espetáculos teatrais no estado, além de festivais de artes cênicas, como o FESTAR que está na quinta edição.

segunda-feira, 31 de março de 2025

DANI CAMARA FALA SOBRE O CIRCUITO CARIOCA DE ARTES DE RUA - EDIÇÃO DO MES DA MULHER

 

Crítica às performances teatrais por Dani Câmara



Flora e o Passarinho



A Gira Cia Andante com muita beleza e propriedade, ocupa o espaço público. A peça teatral “Flora e o Passarinho”, desde a ‘chegança’ até o encerramento do acontecimento cênico, move o platéia com energia e encantamento. A kombi, transporte do grupo, é o objeto principal do cenário e funciona como uma grande caixa de surpresas - ‘objeto mágico’ de onde saem corpos, ideias e imagens. 


O público é contemplado com um espetáculo harmônico, onde temas tão necessários como: cuidado com a natureza e respeito aos mais velhos, são desenvolvidos com maestria no texto dramático, que através da escolha da narrativa, da  construção dos diálogos e da sequência de ações, traz identificação e reflexão ao espectador. Os personagens são muito bem construídos pelos atores e igualmente bem traduzidos através dos outros elementos cênicos: figurino e máscaras. Figurino - uso inteligente e funcional de tecidos com movimento, utensílios e acessórios. Máscaras - confeccionadas com material orgânico, malha de coqueiro, e seu uso pontual na composição visual das cenas. 


Outro ponto alto é a música e o uso de bonecos. A música ao vivo executada pelo violonista do grupo cria sonoplastia e estímulo sonoro a partir de ações e acontecimentos cênicos do momento, e também cria camadas sensíveis com canções muito bem executadas pelos atores que são instrumentistas no espetáculo. Um espetáculo completo com a manipulação de bonecos de vara, que são os personagens principais da trama, e capturam o público com ludicidade e domínio técnico. Todo o conjunto criativo aponta para um teatro que é, ao mesmo tempo, educativo e mágico, refletindo o cuidado com o meio ambiente e com as relações humanas de uma maneira divertida e significativa.








Artistas da Terra (EGITO)


A performance de dança ghawazee das artistas Live França e Yasmin Yasin é uma verdadeira oferenda ao público, marcada pela forte presença e encantamento das bailarinas. Desde o início, com gestos simples como o oferecimento de morangos e sorrisos, elas criam uma atmosfera de doçura e conexão imediata com a plateia. Ao seguir com os movimentos do corpo e do quadril, a dança em praça pública é um poderoso gesto de empoderamento. E mesmo sem um profundo conhecimento da cultura, o público se vê refletido nos corpos das artistas, estabelecendo uma conexão profunda de identificação. 

A troca entre as bailarinas e a plateia, especialmente nos momentos de interação direta, é um dos pontos altos da performance. As artistas conseguem envolver o público com seus gestos e expressões entregando um espetáculo criativo e cheio de magia. O cenário acaba ficando secundário, a sugestão que pode contribuir com a experiência é a utilização mais criativa dos elementos cênicos para ampliar ainda mais a imersão do público. 

Em resumo a performance muito é rica pela execução, e além de nos apresentar outro universo a partir do ritmo, também cria um momento atemporal, um intervalo da aceleração do cotidiano, no qual o público é seduzido pela suavidade e sensibilidade das bailarinas, que criam um espaço de fenda do tempo, onde o gesto e a presença se tornam os principais veículos da linda experiência.




Histórias de Princesas Guerreiras


A peça Histórias de Princesas Guerreiras, do Grupo AsLucianas, é notável por sua capacidade de estimular a leitura e a imaginação do público, conduzindo-nos por narrativas que exploram novos horizontes e possibilidades de existência. Ao apresentar o universo de três guerreiras de diferentes partes do mundo, o espetáculo oferece um convite cativante à imaginação, transportando a platéia a um espaço onde múltiplas realidades se tornam tangíveis. O uso de mapas como elemento dramatúrgico é uma escolha inteligente, pois, ao incorporar a cartografia, a visualização de trajetos físicos, mas também simbólicos, ampliando a experiência sensorial e estabelecendo conexões profundas entre saberes, corpos e culturas.

A composição dos quadros cênicos é outro ponto forte da peça, criando uma dinâmica que integra o público de forma significativa no desenrolar da história. A interatividade proporcionada pelo grupo estimula uma co-criação da narrativa, fazendo com que cada espectador se sinta parte do processo. Esse envolvimento direto transforma a dramaturgia em uma experiência coletiva, onde a plateia se torna co-autora da história, refletindo sobre os temas apresentados e se conectando de forma pessoal com os personagens.

Uma sugestão para tornar o espetáculo ainda mais impactante seria explorar de maneira mais integrada a execução musical. A música, ao ser mais presente e harmônica com os outros elementos cênicos, poderia acrescentar camadas emocionais, ampliando o poder de conexão com o público e enriquecendo ainda mais a atmosfera do espetáculo. 

Outro ponto de destaque é a integração do grupo entre si e, entre o ambiente com sua habilidade de adaptação, a troca de personagens entre as atrizes e o uso de bonecos adicionam um toque de ludicidade e diversão, ampliando o apelo da peça para todas as idades, proporcionando momentos de leveza que equilibram a profundidade da narrativa. O espectáculo é, sem dúvida, uma experiência cativante, brincante e lúdica que vale a pena ser vivenciada.


Circuito Carioca de Arte de Rua



O Grupo As Lucianas merece parabéns não apenas pelo trabalho artístico, mas também pela realização do evento e pela criação do “Circuito Carioca de Artes de Rua". Sob o slogan "Promover teatro onde o povo está", o projeto leva teatro e performances acessíveis e gratuitas a um público amplo e diversificado da Zona Norte, Zona Oeste e Baixada Fluminense, promovendo a democratização do acesso à cultura.

O Circuito de Arte Carioca de Rua é uma iniciativa de grande importância social, pois é uma plataforma para que outros artistas realizem sua arte pública. E ao descentralizar as apresentações, o grupo oferece a oportunidade para que um público que poderia estar à margem das ofertas culturais tenha acesso a cultura. Além disso, a inclusão de recursos de acessibilidade, como tradução em Libras, cadeiras adaptadas para obesos, uma estrutura de som apropriada, e a presença de equipe de apoio logístico, assegura que todos possam vivenciar a experiência de maneira respeitosa e plena, independentemente das suas necessidades.

"Promover teatro onde o povo está" não é apenas um slogan, mas uma ação concreta de inclusão e transformação cultural. O trabalho do Grupo As Lucianas, através de um núcleo central de mulheres, não só enriquece o cenário teatral, mas também contribui significativamente para a criação de uma sociedade mais acessível e igualitária.


Crítica Teatral    Dani Câmara         @souldanicamara

Cantora, compositora, atriz, cidade do Rio de Janeiro e em São Paulo. Formada em Arte Cênicas/Direção Teatral na UFRJ, tem em sua trajetória prêmios e apresentações internacionais entre Argentina, Espanha e Portugal. Tem o Prêmio de Melhor Atriz Juri Popular no Cine Santo André SP com o Longa 'Solanas Explicado as crianças 2024, Melhor Cena e Melhor atuação Festival VR Cena 2021 com ' CORPA de Mula". Indicação melhor atriz coadjuvante Premio Musical Rio 2022 com o espetáculo musical 'Ceu Estrelado', Prêmio melhor cena pela direção do projeto "Disfarce" no Festival Internacional de Guaranésia MG 2021, Prêmio Música Sesi 2023 com "Dengo Preto", Prêmio Festival Internacional Red Bull Music, entre outros. Atualmente é apresentadora do Programa "Papo na Laje" - transmitido na TVT de SP/ Canal Comunitário do RJ e YouTube), é atriz e idealizadora do projeto teatral "Se Quiser Falar de Amor", é gestora da Empresa Cultural Corpa Negrura e desenvolve seu projeto autoral na cena contemporânea e nas plataformas de música e vídeo.



Esse projeto tem patrocínio da Secretaria Especial de Integração Metropolitana através do Programa Integra Rio 

Fotografia: Mila Barroso

Confira